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Açores 24Horas

21 de Novembro de 2010


Nota

 

Caros leitores. Li cem livros em cem semanas e sobre eles escrevi cem recensões neste espaço. Agradeço o acolhimento da simpática Sisandra e o feed back que fui recebendo de alguns leitores. Mas chega, não quero maçar ninguém. Com amizade, despeço-me de todos com esta recensão nº 100. Mas isto não é um adeus – é um até breve.

 

   

                 

O Peso do Hífen – Ensaios sobre a experiência luso-americana

                        de Onésimo Teotónio Almeida

 

Estudioso acérrimo da história cultural, do imaginário e de tradição literária dos Açores, observador atento do real luso-americano, Onésimo Teotónio Almeida continua a publicar livros com espantosa regularidade, numa linha de contínua e continuada coerência com a sua obra primordial de onde irradia todo o seu imaginário: Da Vida Quotidiana na lUSAlândia (1975).

Deste autor acabo de ler, com natural expectativa, O Peso do Hífen, Ensaios sobre a experiência luso-americana (Imprensa de Ciências Sociais, 2010), que reúne uma série de textos, escritos entre 1983 e 2010, concebidos para ensaios, palestras e outras comunicações, e que agora surgem em versões alargadas, aprofundadas, expandidas, actualizadas e/ou reescritas.

Falar de Onésimo é falar de um pensamento analítico e da visceralidade de uma escrita rigorosa. E este autor pensa claro e escreve claro. Por exemplo, sobre as impressões da sua vida interior e exterior. Os seus escritos, com marcas de oralidade, propõem reflexões que são emoções e emoções que são reflexões. Eis um escritor de pormenores (patente nas inúmeras “Notas ao texto”), bem apetrechado em termos teóricos, com capacidade de informar, esclarecer, decifrar e avaliar, e que incorpora nos seus discursos os métodos e as preocupações dos mais diversos ramos da ensaística e da investigação.

Sabendo-se que, à boa maneira empirista, as ideias chegam a nós pela experiência, temos que Onésimo sabe do que fala e fala sobre o que sabe e conhece, ele que vive e escreve em permanente desassossego criativo. Da sua vivência de quatro décadas em terras americanas, da assimilação de duas culturas diferentes, ele faz, com grande lucidez, uma série de reflexões filosóficas, observações sociológicas, apreciações literárias e retira conclusões, reinterpretando e reinventando, através de uma escrita errática, os temas que lhe são particularmente caros: a experiência da diáspora, a identidade, assimilação e aculturação dos portugueses inseridos nas comunidades norte-americanas; a “cultura hifenada”; as evocações dos incontornáveis Jorge de Sena e José Rodrigues Miguéis; a revisitação dos tempos pós revolucionários de Abril; as (íntimas) mundividências; os olhares (críticos e minuciosos) sobre a história e literatura luso-americanas, etc.

Se o pensamento de Onésimo é profundamente português, a sua metodologia de análise é estruturalmente anglo-saxónica. Quero com isto dizer que este autor não é dos que usam palavras a mais para esconder ideias a menos. Bem pelo contrário: sem flores na lapela nem brincos semióticos, ele dá forma e expressão ao que sente e pensa, sem aparatos académicos, esquivando-se a hermenêuticas e a considerações excessivamente teóricas, escrevendo num português vivo e escorreito, em estilo limpo, de grande elegância lexical, e com uma muito bem conseguida articulação de ideias.

 

 

Victor Rui Dores

 

 

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O Jornal FaiaOnline, agradece ao Prof. Victor Rui Dores o empenho e dedicação que durante as ultimas 100 semanas nos dedicou.

Está connosco desde a nossa primeira edição, há precisamente 2 anos, o que muito nos honrou e prestigiou.

Como o próprio referiu na sua nota, não é um Adeus, é sim um Até Breve!

O nosso muito obrigado.

 



15 de Novembro de 2010


Finalmente Árvore,

de Sara Porto

 

 

    Mergulhando no universo prodigioso da fábula, a faialense Sara Porto escreveu Finalmente Árvore (APADIF, 2010), uma história envolvente e bela que desperta em nós uma imediata adesão afectiva.

    Com claros propósitos ecológicos e óbvias preocupações ambientais, este é um livro que sendo para crianças se destina também aos adultos, ou à criança que existe dentro de cada adulto. Sempre assim foi desde as fábulas de Esopo (que viveu seis séculos antes de Cristo), passando por Fedro, La Fontaine, Daniel Deföe, Emílio Salgari, Júlio Verne, Robert Louis Stevenson, Lewis Carroll, entre muitos outros, até aos nossos dias.

 

A história que lemos, dando conta das aventuras, atribulações e peripécias de uma sementinha que cresce e se torna em frondosa árvore, revela o lado humano dos sentimentos, dos afectos, das emoções e dos estados de alma. De referir que, a pensar nos deficientes visuais, existem 22 páginas do livro em Braille.

Revelando sensibilidade e imaginação criadora, Sara Porto escreveu esta narrativa infantil mas não infantilizada, e isto porque esta é uma história que vai para além do universo respeitante às crianças.

 

As ilustrações do livro, levadas a cabo por pessoas com deficiência do Projecto Moviment´arte, da Associação de Pais e Amigos dos Deficientes da Ilha do Faial (APADIF), dão sentido, estética e autenticidade à história. Há, nestes desenhos, uma beleza plástica e um fascínio encantatório que é de saudar.

Por conseguinte, este é um livro que olha e nos olha, que fala e nos fala. Deixemo-nos enternecer com esta fábula que se lê com infinito prazer. Porque bem carecidos e carenciados de sonho andamos todos nós.

 

 

 

 

 

Victor Rui Dores



9 de Novembro de 2010


Canção da vida vivida

de Armando Côrtes-Rodrigues

 

 

         Faz todo o sentido escrever poesia numa altura em que, manifestamente, a poesia não está na moda. E não está na moda porque a linguagem poética tem dificuldade em competir com outras linguagens: a teórica, a social, a política e, sobretudo, a linguagem dos órgãos de comunicação social.

            Por outro lado, os ventos não correm de feição para a coisa poética. Vivemos um tempo marcado por um feroz neo-liberalismo, por um capitalismo desenfreado, por ausência de referências e de valores. Este é, acima de tudo, um tempo marcado pelas novas tecnologias da informação e da comunicação que, com todo seu rol de coisas positivas, também traz aspectos nefastos. Por exemplo: hoje falamos muito, mas comunicamos pouco; vivemos essencialmente da imagem – (os jovens passam mais tempo em frente do écran do computador do que em vez do écran da televisão). Está aí a geração do videoclip e tudo o que não seja uma imagem por segundo é, para os nossos jovens, uma perfeita chatice… Jovens que, segundo Umberto Ecco, utilizam o telemóvel como um apêndice natural das trompas de Eustáquio…

            Moral da história: com tanta comunicação, com tanta informação e com tanta imagem, os nossos jovens são hoje cada vez mais comunicativos, mas menos cultos; cada vez mais informados, mas menos eruditos. Pior do que isso: hoje confunde-se cultura com animação e diversão…

            A poesia não está na moda. É certo que os livros de poesia não fazem aumentar as receitas públicas nem equilibram as contas externas. E não é menos certo que o poema não tem ainda a cotação do dólar ou do Euro. E, no entanto, nunca como agora, estivemos tão carentes e carenciados de sonho e de utopia. Nunca como agora precisamos tanto de poetas, de filósofos e de gente das Letras. (Afinal “o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo”, como escreveu Fernando Pessoa).

            Vem tudo isto a propósito do livro Canção da vida vivida (Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1991), de Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971), com selecção e apresentação do professor brasileiro Celestino Sachet.

 Estamos na presença de uma colectânea de poemas inéditos daquele autor micaelense, poemas esses que se encontravam no espólio sob guarda da família e dispersos por jornais e revistas.

Apesar do evidente circunstancialismo dos poemas, e não obstante tratar-se de um livro desigual, quer na forma, quer no conteúdo, Canção da vida vivida é, mesmo assim, uma obra importante para a compreensão da poética de Armando Côrtes-Rodrigues que, recorde-se, foi amigo pessoal de Fernando Pessoa na fase futurista da revista “Orpheu”, e que viria a trocar Lisboa por São Miguel, onde durante longos anos, se dedicou a um certo franciscanismo literário, cantando, em verso e em prosa, louvores à paisagem, à vida e às gentes daquela ilha, de que são exemplos significativos o livro de poesia Em louvor da humildade (1924) e a bem conhecida peça de teatro Quando o mar galgou a terra (1940).

 

 

 

 

                                                                                                          Victor Rui Dores



1 de Novembro de 2010


Um testemunho de vida em

Histórias de Aventuras e Contrabandos,

de Nuno Álvares de Mendonça 

 

      Amante do mar e da liberdade, Nuno Álvares de Mendonça largou de novo amarras na aventura da escrita.

      Após ter dado à estampa a 3ª edição desse livro incontornável que dá pelo título de Memórias de um Baleeiro, este autor jorgense (filho de mãe picarota e pai graciosense) volta agora, com estas Histórias de Aventuras e Contrabandos (edição de autor, Nova Gráfica, Lda., Ponta Delgada, 2005) a aparelhar a memória e a rizar o discurso. Navegar é preciso, não importa a rota, muito menos o destino. Sem temer furacões, ventanias, tempestades e outras tormentas, ei-lo timoneiro experiente, a navegar à bolina, perseguindo a liberdade, a felicidade e o sonho.

 

      Ainda e sempre há em Nuno Álvares de Mendonça o gosto de surpreender o leitor e o prazer de contar histórias com desfechos surpreendentes.

      Mas atenção: estas histórias não são viagens imaginárias, já que este livro resulta de experiências vividas pelo seu autor no âmbito da ilha de S. Jorge, em geral, e da vila das Velas, em particular.

      De regresso à sua ilha natal, o velho Jaime (alter-ego de Nuno Álvares de Mendonça) acompanhado de um amigo recente em viagem de férias pelas ilhas (e que na narrativa funciona como um interlocutor), visita lugares, recorda acontecimentos, reencontra pessoas, mata saudades. Esta revisitação geográfica e afectiva à ilha de S. Jorge constitui, afinal, o pré-texto, ou o leit motiv do livro.

 

      Histórias de Aventuras e Contrabandos constitui um testemunho de vida e traz-nos, à partida, três grandes novidades temáticas.

      Em plena Segunda Guerra Mundial, e numa altura em que no decorrer de tal conflito armado Portugal manteve a chamada “neutralidade colaborante”, Nuno Álvares de Mendonça foi testemunha de acções de negócios e contrabando na ilha de S. Jorge, praticadas em terra e no mar, envolvendo tripulantes de submarinos alemães e naturais da ilha. O dólar americano servia de moeda de troca, uma vez que o marco alemão tinha pouco valor cambial. Os lucros eram chorudos. Segundo o autor, numa altura em que uma casa razoável se comprava por 15 ou 20 contos, os lucros obtidos no contrabando da borracha poderia atingir os 30.000$00. Tanto quanto julgo saber é a primeira vez que este assunto (por muitos ainda considerado tabu) é, no contexto açoriano, assumidamente trazido às páginas de um livro.

 

      Segunda novidade: a existência, na ilha de S. Jorge, de uma “Justiça da Noite” ainda durante o primeiro quartel do século XX. Até agora, os registos escritos sobre tal prática circunscreviam-se à ilha Terceira. Pois a verdade é que, num tempo em que se ia parar à cadeia por transportar aguardente do Pico para S. Jorge, Nuno Álvares Mendonça, ainda muito jovem, esteve directamente envolvido em manifestações dessa organização secreta que visava a moralização dos costumes.

      Terceira novidade: a homenagem sincera e sentida que o autor presta a seu pai, Rui de Mendonça (1896-1958), dando-nos a verdadeira dimensão humana dessa personalidade de referência que, tendo sido professor primário, advogado provisionário, armador, poeta, contista, teatrólogo, jornalista e político, sempre se bateu pelos valores da liberdade, da justiça e da democracia.

 

      Em 1931, Rui de Mendonça, então Delegado da Junta Revolucionária da ilha de S. Jorge, envolveu-se em acções que visavam o derrube de Salazar… Acabaria por sofrer as consequências da sua coragem e do seu envolvimento político: esteve preso na cidade da Horta e, posteriormente, foi engrossar as fileiras dos deportados políticos que conheceram o cativeiro no Castelo de S. João Baptista, na ilha Terceira, não se concretizando, felizmente, a ameaça do Tarrafal… Foram tempos muito difíceis para a família, que era numerosa, sendo de destacar a grande determinação e a inexcedível dignidade com que a mãe do autor soube enfrentar tamanhas adversidades.

      Recorde-se que, no dia 9 de Junho de 1989, Rui de Mendonça foi condecorado, a título póstumo, com o Grau de Oficial da Ordem da Liberdade, pelo então Presidente da República, dr. Mário Soares.

 

      De resto, a influência de Rui de Mendonça seria determinante na formação cívica, moral e intelectual de Nuno Álvares de Mendonça que, desde muito cedo, se habituou a não gostar de ditaduras, fossem elas exercidas, lá longe, por Carmona e Salazar, ou, cá dentro das ilhas, por directores de alfândega, guardas-fiscais e outros inimigos de estimação… Mantendo sempre uma atitude de inconformismo e resistência, viria ele, mais tarde, a apoiar, em S. Jorge, as candidaturas de Humberto Delgado e Norton de Matos.

      Mas este é, essencialmente, um livro de histórias, memórias, aventuras e peripécias. Algumas são heróicas: por exemplo, a ousadia e a coragem dos “lutadores do mar” na amarração ao cais de lanchas e batelões, em tempo de mar bravo e de falta de infra-estruturas portuárias…

      E há a epopeia do autor que, com apenas 14 anos de idade, transportou, num pequeno barco e pela calada de noite, um leitão de S. Jorge para o Pico… Ele que, muito jovem, fez uma chave da porta da cadeia das Velas, em estreita colaboração com a “justiça da Noite”… E salvou uma criança prestes a morrer afogada… E concebeu, a partir de uma ventoinha de ferreiro, um invento para aumentar a potência do motor de uma lancha (“gasolina”). E, mais tarde, domesticou um cavalo que, na primeira tourada de praça realizada em S. Jorge, salta por cima do toiro livrando-se assim de uma cornada fatal. (“…e enfrentar um toiro não há-de ser pior do que enfrentar uma baleia”, é-nos dito na página. 109). E, já homem maduro, empreendeu uma viagem arriscadíssima, a bordo da sua traineira, de S. Jorge para o Faial…

 

      Outras narrativas são absolutamente hilariantes: a forma radical com que o autor aprendeu a nadar…; a do outro que foi roubar uma melancia e que, perseguido por um cão e seu dono, corre desalmadamente com a melancia debaixo do braço e, ao saltar para a “chata”, estatela-se no mar, sem saber nadar… Ou a peripécia daquele sujeito que, ao cair da tarde, vai caçar pombas da rocha, mas começa a chover e ele abriga-se num palheiro; aí chegado escuta a voz de uma mulher que lhe pergunta se ainda chove. O homem, que era amante de saias, procura no escuro o vulto da mulher que estava sentada em cima de um monte de palha. Manhosamente foi-se aproximando e como aquela não lhe oferecesse resistência, tudo se tornou fácil… A surpresa veio depois do acto consumado quando a mulher, dando-se a ver, disse: “Nossa Senhora te pague, meu filho! Há mais de 30 anos que não sabia o sabor disto!” (pág. 106).

 

      Este é um livro atravessado por personagens de grande riqueza humana, algumas frenéticas e tumultuosas: tio Medeiros, contrabandista; o avô Mafredo e a sra. Amélia, contadores de histórias; o João Mentiroso, que fazia partidas; o padre Faria, que se endividava para pagar as contas dos mais necessitados; mestre Amaro Carvalho, homem sensato, culto e contador de casos; Manuel da Rosa, homem de sabedoria

      Mas este regresso à ilha serve também um propósito de ajuste de contas, já que os oportunistas do passado são desmascarados (José Silva, o polícia, por exemplo), bem como é posta a nu a “nabice” e a incompetência do mestre do barco “Espírito Santo” que, em dia de mar chão, naufragou ao fazer a manobra de saída do cais das Velas… As causas de tal naufrágio são aqui minuciosamente analisadas.

      Estamos, por conseguinte, perante um belíssimo livro de aventuras marítimas, de memórias marinheiras e de apetecíveis peripécias. Há aqui uma nostalgia irónica que apetece e uma escrita bem fluída (que se fica entre a ilha e a viagem) e se lê com infinito prazer. 
 
 

 

 

 

Victor Rui Dores 



24 de Outubro de 2010


Reliques of Ancient English Poetry

e o Romanceiro de Almeida Garrett

 

      Contrariamente ao que se ensina nas Escolas Secundárias, Almeida Garrett não foi apenas o introdutor do romantismo em Portugal, nem o “dandy” que usava espartilho e se pavoneava, no Rossio, com as nomeações de Visconde, Par de Reino e Ministro… Ele foi, acima de tudo, um conhecedor profundo das literaturas inglesa, francesa e alemã – um autor que soube apreender as ideias mais “europeias” de uma imensidade de escritores do século XIX.

      O ensaio As reliques of Ancient English Poetry de Thomas Percy e o Romanceiro de Almeida Garrett: Dois Modos Diferentes de Entender e Avaliar a Poesia Popular (SREC/DRAC, 1990), de E. J. Moreira da Silva.

      É propósito deste autor analisar e comparar as compilações de Thomas Percy (1729-1811) e de Almeida Garrett (1799-1854) à luz dos motivos que os levaram a realizá-las e dos objectivos que pretenderam alcançar com elas. Levar a cabo tal tarefa implica, no entanto, concluir quais os princípios literários que se encontram na base do modo de entender e avaliar a poesia popular, quer de Percy, quer de Garrett; razão pela qual E. J. Moreira da Silva, ao longo deste estudo, analisa e estabelece as diferenças ou semelhanças existentes entre estes princípios.

 

      O ensaio está dividido em duas partes: na primeira delas, o autor fala exclusivamente das Reliques de Percy, inserindo-a no contexto literário da época (o do início da transição, em meados do século XVIII, do Neoclassicismo para o Romantismo inglês das primeiras décadas do século XIX) e analisando-as à luz de três ensaios de Addison, acerca das antigas baladas, que, segundo o autor, “se revelam indispensáveis para uma compreensão adequada dos princípios teóricos que determinam o modo de Percy entender e avaliar as composições dos antigos bardos”. Na segunda parte é traçado o percurso que, sobretudo das Reliques e dos poemas Ossiânicos, conduz ao aparecimento do nacionalismo romântico alemão, com o qual surgiram as ideias fundamentais defendidas por Garrett no seu Romanceiro.

      Neste ensaio fala-se ainda da teoria da poesia popular (Volksdichtung) de Herder, que se encontra, por sua vez, na origem do nacionalismo romântico alemão e que, segundo Moreira da Silva, “se tornou necessário conhecer, para que se possa compreender com clareza o fundamento teórico subjacente ao pensamento exposto por Garrett nos prefácios, introduções e notas do Romanceiro”. Por fim o autor define os critérios literários que determinam o modo de Garrett entender o valor e a “função” da literatura popular, analisando-a simultaneamente à luz do pensamento de Herder acerca da poesia popular e em comparação com os que subjazem ao modo de Percy entender e avaliar as produções dos antigos bardos.

      Este livro fica, desde já, a constituir um decisivo contributo para o progresso dos estudos dentro da ensaística comparada. 

 

 

 

 

Victor Rui Dores



18 de Outubro de 2010


Os Novelos

ou a inquietação do partir e do ficar 

 

 

      Os Novelos (colecção Gaivota, SREC, 1990), de Madalena Caixeiro, é um livro sintomático da mundividência açoriana. Mas falta-lhe profundidade narrativa e imaginação criadora assente na magia do verbo. Acima de tudo, falta, neste livro, uma perspectiva do conhecimento aprofundado dos Açores.

 

      É que não se pode escrever um bom romance acerca destas ilhas quando delas se tem apenas um conhecimento pouco mais que superficial. Não basta falar do vaivém das marés, da humidade do clima, da terra que treme, das hortênsias em flor, do perfume dos ananases, do respirar das baleias, ou da estranheza do “sotaque”… É preciso transfigurar o real mítico dos Açores, por exemplo. Madalena Caixeiro está inda a tempo de aprender a lição nemesiana…

      Poderá  parecer estranho que se comece por avançar aqui uma leitura negativa para um livro que esta recensão pretende defender. É que aspectos, neste livro, que me agradam sobremaneira e que importa aqui registar.

 

      Por exemplo: o retrato psicológico das personagens femininas. São mulheres insuladas, perseguidas na sua ânsia de quebrar a clausura da ilha e habitadas por um percurso de utopia e por um desejo de felicidade. Há, nelas, a revolta interior, a ânsia de evasão, a busca de um amor que ultrapasse a mesquinhez quotidiana da ilha. São mulheres que sofrem o ambiente opressivo ilhéu e que, por isso, perseguem sonhos de viagem e de aventura. Vivem divididas entre a vontade de partir (para o continente português, ou para a América) e o súbito desejo de ficar (nos Açores).

      Apesar de escrito com alguma frouxidão narrativa, Os Novelos é mesmo assim, um livro interessante que e lê com sereno prazer. 

 

 

Victor Rui Dores



9 de Outubro de 2010


Água de Verão – Contos e Narrativas

de Florêncio Terra


Florêncio Terra (1857-1941) escolheu aquilo que melhor serviu os propósitos da sua escrita: o conto rústico, que teve em Júlio Dinis, Fialho de Almeida e Trindade Coelho os seus principais cultores.

Se situarmos a escrita deste autor faialense na época em que foi produzida, facilmente detectaremos que ele soube assimilar certas correntes literárias e certas influências temáticas então em voga do outro lado do mar: a preocupação em cultivar uma escrita estética, elegante, que busca a beleza suprema da arte pela arte; a renúncia ao mundo da cidade pela procura incessante de ambientes bucolicamente rurais; a captação sensorial (de feição simbolista) da paisagem; um certo tom desiludido, pessimista e nostálgico em relação à temática do destino do homem e ao sentido da vida e do mundo; uma excessiva envolvência pela moral católica; um ambíguo fascínio pelo presságio e um certo gosto mórbido pelo tema da morte, etc.


Um pouco de tudo o que acima se expôs está contemplado no livro Água de Verão – Contos e Narrativas (Horta, 1987), mas com algumas variantes temáticas específicas. E isto porque os contos nos remetem para um contexto, que não deixando de ser rústico, se inscreve num espaço fortemente telúrico: a ilha.

Com efeito, é na ilha onde tudo se passa. É na ilha onde as personagens, mantendo entre si mútuas relações de harmonia e de conflito, se revelam através de uma série de mundividências: a memória do Natal e da matança do porco e o desfilar de histórias do vivido, do sentido e do evocado.

No livro em análise a vida é, assim, representada nos seus momentos de exaltação e de crise, sendo as relações humanas apreendidas nos seus momentos de tensão antagónica. É precisamente esse “modo” como a escrita de Florêncio Terra põe em questão o real, que, quanto a mim, a torna se não diferenciada de outros prosadores, pelo menos razoavelmente personalizada. Vejamos porquê.

Em vários contos, o narrador torna visível a sua presença, isto é, adopta a perspectiva de uma personagem inserida na história (narrador-protagonista). Escrevendo para ser lido em jornais, Florêncio Terra não perde nunca de vista o seu destinatário: o público leitor. Por isso os textos são como que produto imediato do acto da fala. Considere-se o tom cúmplice, directo e coloquial com que o narrador se dirige aos leitores: “meu amigos, quereis saber…?”; “muitos bons dias, queridos leitores”; “temos por hoje conversados”; etc.

Entre uma literatura de exis (literatura de consumo, de deleite ou entretenimento) e uma literatura de praxis (literatura de acção tendente a transformar as estruturas da sociedade humana), Florêncio Terra opta definitivamente pela primeira. Daí que a sua escrita não desça fundo nas implicações sociais: intui apenas uma realidade estabelecida. É verdade que escreveu uma literatura de salão, cultivou um certo tipo de escrita com o propósito de agradar uma certa elite faialense. Mas também é verdade que, mesmo alinhando em certos modismos da época, Florêncio Terra foi um homem de grande talento, “um estilista dotado de significativos recursos linguísticos e imagéticos”, segundo escreve Urbano Bettencourt no prefácio do livro em apreço.


Há  um conto de que gostei especialmente: “Suave arrependimento”, em que nos é apresentado um espantosos retrato psicológico de uma mulher – Madalena. Florêncio Terra sabia traçar os perfis emocionais das suas personagens. Acima de tudo escrevia com sóbria mestria discursiva, trazendo para a sua prosa, valiosas achegas regionalistas e etnográficas.

Impõe-se, pois, (re)descobrir e recuperar este escritor nosso.


Victor Rui Dores



4 de Outubro de 2010


A poesia singela de Ana Adelina 

 

     Ana Adelina Bettencourt da Costa Nunes (1892-1977) foi, à semelhança de uma Silvina Furtado de Sousa – Iracema (1877-1973), uma mulher de letras e uma poetisa estimável. E isto numa altura em que, no contexto da sociedade faialense, o papel da mulher se remetia praticamente ao doce aconchego do lar.

      Desta autora releio o livro póstumo O meu livro de cantigas (Horta, 1976), onde, em versos singelos, vasa todo o lirismo da sua alma idealista e nostálgica. Os seus poemas alimenta-se de amor e revelam um constante deslumbramento por tudo aquilo que a rodeava: o culto pela natureza, a paixão pelo mar, a ligação telúrica à ilha, a evocação do passado, o amor ao marido e à família…

 

      Os versos de Ana Adelina são, por isso mesmo, auto-biográficos, descritivos, impressionistas e confessionais, sendo atravessados por uma suave espiritualidade romântica.

      Mulher simples, culta, inteligente e generosa, esta faialense soube perseguir o sonho através de uma poética claramente assumida no feminino. Trata-se de uma poética que parte do eu para os outros. Com efeito, a sua escrita esteve sempre ao serviço dos outros e da comunidade faialense. E deixou marcas nos jornais, nos livros, nas palestras, nas agremiações desportivas, sociais e culturais, no teatro e no ensino do magistério primário.

      Pelo muito que fez pela sua terra, merece esta mulher ser lembrada. Quanto mais não seja porque ela foi uma versejadora que, com bons sentimentos, soube escrever poesia estimável. 

 

 

Victor Rui Dores



28 de Setembro de 2010


Canto ao Pico,

de Manuel de Arriaga 

 

     A par de uma intensa actividade dividida pela política e pela advocacia, Manuel de Arriaga (1840 – 1917) foi também prosador doutrinal e poeta estimável. As suas obras publicadas reúnem temas tão diversificados como poesia, escritos didácticos e filosóficos, textos políticos, discursos parlamentares e trabalhos forenses.

 

     No âmbito deste artigo cabe apenas tecer brevíssimas considerações sobre a poesia deste faialense que foi o primeiro Presidente da República Portuguesa e que viveu intensamente os últimos decénios da Monarquia Constitucional e os primeiros anos da Primeira República.

     Espírito profundamente altruísta e magnânimo, romântico em política como nos gostos literários, a poesia de Manuel de Arriaga inspira-se nos ideais humanitários preconizados pela Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade, Fraternidade), estando vertida nas publicações Canto ao Pico (Horta, 1888), Cantos Sagrados (Lisboa, 1899) e Irradiações (Lisboa, 1901) – obras de nítida inspiração romântica e bem reveladoras da alma pura e ingénua de Arriaga e do seu espírito religioso e idealista.

 

     Sejamos claros: Manuel de Arriaga, notável orador, não foi um grande poeta. Mesmo assim, é de reconhecer que às vezes conseguiu, ao abordar temas como Liberdade e Deus, erguer-se a voos que não o deixam em plano inferior a outros poetas portugueses seus contemporâneos, de bem maior fama. Sobressai na sua poesia uma religiosidade de base panteísta.

     Deste autor acaba de sair a edição fac-similada do folheto Canto ao Pico, no âmbito das comemorações do centenário da República promovido pela Direcção Regional da Cultura do Governo dos Açores, com texto introdutório de Susana Goulart Costa.

 

     Em 1887, com 47 anos de idade, Manuel de Arriaga regressa aos Açores depois de 21 anos de ausência, sendo recebido entusiasticamente pelos membros do Centro Republicano da Horta. Nos dias 9 e 10 de Setembro daquele ano realiza, na companhia do seu amigo Artur Avelar e de três guias, uma subida à montanha do Pico. Dessa experiência, intensa e exaltante, resultaram os nove poemas (que devem ser lidos como um só) de Canto ao Pico, cujos versos glorificam a “montanha soberba”. Cinco notas apendiculares escritas pelo autor ajudam-nos a perceber essa aventura inolvidável. 

 

 

Victor Rui Dores



21 de Setembro de 2010


Álbum da Ilha do Pico,

de Ermelindo Ávila

 

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”        Lev Tólstoi 

 

 

      Homem atento à história e aos problemas da sua ilha do Pico, espírito crítico, perspicaz e informado, o comendador Ermelindo Ávila continua, aos 95 anos de idade, igual a si próprio: sereno e distinto cavalheiro, incansável e afável estudioso, interlocutor amabilíssimo, senhor da cortesia, da persistência e da bondade humana.

      A sua última publicação, Álbum da Ilha do Pico (Publiçor, 2010), regista e condensa um rico manancial informativo sobre os 3 concelhos da ilha montanha, numa linha de contínua e continuada pesquisa histórica e cultural. Este autor vem, assim, mostrar e demonstrar que é a partir da história local que se chega à história universal. De resto, e num contexto literário, já no-lo havia lembrado Miguel Torga: “O universal é o regional sem paredes; (…) quanto mais regional, mais universal”.

 

      Por conseguinte, Ermelindo Ávila (re)visita e (re)escreve fragmentos da história e do imaginário da ilha do Pico, lança olhares às suas gentes e paisagens, resgatando do esquecimento “figuras e factos” incontornáveis, evocando acontecimentos marcantes – do povoamento do Pico às artes e ofícios, das actividades comerciais e industriais à caça à baleia, do vulcanismo à emigração, das festas religiosas e profanas à bibliografia picoense.

     E, porque já viveu muito e é homem sábio, Ermelindo Ávila dá sempre um testemunho pessoal ao que narra, articulando passado e presente e perspectivando o futuro da sua ilha. Sabendo-se que, à boa maneira empirista, as ideias chegam a nós pela experiência, temos que este picaroto sabe do que fala e escreve sobre o que sabe e conhece, ele que, de há muito, nos jornais (“O Dever”), na rádio (“Manhãs de Sábado”) e em outras praças, vem desenvolvendo profícua actividade, dedicando-se ao estudo e divulgação de temas do Pico, em geral, e das Lajes, em particular, sem descurar o que se passa nas outras ilhas.

 

     Bem arrumado, profusamente ilustrado e graficamente irrepreensível, Álbum da Ilha do Pico aí fica a merecer a nossa melhor atenção. O seu autor, bem apetrechado em termos de pesquisa, com capacidade de informar, esclarecer e avaliar, escreve num português vivo, em estilo limpo, de grande finura lexical e com uma muito boa articulação de ideias.

     A ave de Minerva levanta voo ao entardecer. Continuemos a estar atentos a este historiador de mérito, digo, a este observador atento da ilha do Pico. 

 

 

 

 

 

Victor Rui Dores



15 de Setembro de 2010


Que paisagem apagarás,

     de Urbano Bettencourt 

 

     Urbano Bettencourt é o rigor e a busca incessante da palavra exacta e essencial. Poeta, filólogo, professor, ensaísta (especialista em literaturas insulares), criador literário, homem de pensamento, este picaroto habita a palavra e é por ela habitado – na perspectiva nemesiana de quem, leccionando e escrevendo, se desfaz em linguagem.

 

     O seu último livro, Que paisagem apagarás (Publiçor, Ponta Delgada, 2010), que reúne vários textos dispersos por diferentes publicações, alguns em suporte electrónico, ao lado de outros ainda inéditos, é um verdadeiro deleite intelectual.

     Atravessadas por um sopro poético, estamos perante um conjunto de narrativas que transfiguram a realidade pelo toque da ficção, balançando entre o real e o imaginário. Temos descrições que são evocações e que tanto se soltam na dinâmica dispersiva da viagem, como se prendem à ilha – a real e a sonhada.

 

     Cronista de jornadas, o narrador assume, desde logo, a dupla condição de residente e viajante que, atenta e argutamente observa, reflecte e ironiza o real. Não se trata, porém, de uma viagem que se aventura para longe, ao encontro do Outro e do diverso, isto é, não é uma viagem em espiral segundo a expressão emblemática de Xavier de Maistre, Voyage autour de ma Chambre, nem as Viagens garrettianas são para aqui chamadas.

 

     Em tempo de “globalização galopante”, Que paisagem apagarás impõe-se como expressão da viagem pela literatura, já que esta é uma escrita marcada pela afectividade que resulta de experiências vividas, sentidas e sonhadas pelo seu autor. Acima de tudo, reflexão sobre a condição humana e viagem pela memória – por exemplo, a memória (magoadíssima) da Guerra Colonial.

 

     A depuração passa aqui por uma negação do acessório, do ornamento, da retórica. “Noite” e “Antes da noite” são duas narrativas de excelência literária. O texto “O comboio inexistente”, mais desenvolvido, daria uma bela peça de teatro. E há este dado surpreendente: em vários momentos surge-nos um tal Ernesto Gregório, interposto narrador, a funcionar como uma espécie de alter-ego do autor.

 

     Mas a cereja em cima do bolo está na segunda parte do livro: “Breves, brevíssimas e (des)aforismos”. Em curtíssimos e apetecíveis textos, eivados de humor, escárnio e maldizer, o autor lança olhares sarcásticos a uma certa mundividência social, cultural e literária.

     Por conseguinte, estamos na presença de um Urbano Bettencourt no seu melhor, isto é, na sua fase mais experimentada, consistente, criativa e fecunda. 

 

 

 

Victor Rui Dores



6 de Setembro de 2010


Daqui até  ao Verão

ou a infância revisitada 

      Tendo em vista estudos académicos, releio Daqui até ao Verão, de Ana Paula Costa, conto vencedor do Prémio Nunes da Rosa no Concurso Literário Açores 94. Trata-se de um belo e envolvente texto que, através de fugazes e fugidios “flashes”, nos dá vários olhares (nostálgicos e fascinantes) sobre a “infância a preto e branco” vivida no microcosmo da ilha.

 

      Poder-se-ia falar, a propósito, de Proust e da sua “recherche du temps perdu” (busca do tempo perdido), ou associar a infância ao mito do Éden, isto é, a infância enquanto paraíso perdido do homem.

      Ana Paula Costa optou por nos mostrar fotografias dos “dias felizes” dos seus verdes anos, falando-nos da alegria de sensações e de sentimentos que ficaram enraizados na sua lembrança nostálgica. Observando e descrevendo esse “instante suspenso” que há nas fotografias do passado, accionando os dispositivos do “flashback”, a narradora fala e fala-nos de breves memórias insulares, revisitando, assim, lugares, pessoas e coisas que lhe povoam o imaginário.

 

      Envolto em espessa recordação e pleno de espessura evocativa, Daqui até ao Verão é uma montagem (com várias imagens, planos e enquadramentos) que capta, de forma sincera e sentida, vivências iniciáticas da narradora enquanto menina em pleno despertar para a vida, para o mundo e para o conhecimento das coisas. É, acima de tudo, a memória maior da sua relação inocente e fascinada com os outros – o avô, a avó, demais familiares e amigos. Mas é também a inquietação de quem, nas primeiras rajadas da vida, vive dividida entre alegrias e dúvidas, sonhos e desejos, partidas e chegadas, separações e reencontros. É, enfim, a busca incessante de um “deus ex-machina”.

 

      Numa escrita tricotada pelas marcas de uma inocência assumida, Daqui até ao Verão busca também respostas para o complicado mundo dos adultos, questionando os seus valores culturais e educativos, problematizando alguns dos mecanismos repressivos associados à infância (a escola, a catequese, etc.). A narradora (Inês) vai, a pouco e pouco, compreendendo que o mundo não é igual para os homens e para as mulheres. Os homens têm o poder, o saber e a liberdade. As mulheres perseguem, no seu íntimo, a ânsia de quebrar e clausura e os tabus da ilha, havendo nelas a busca do desejo e da felicidade.

 

      Continuando a manusear o álbum de fotografias antigas, a narradora recorda o fascínio da ilha e a memória da água viva. A ilha é o seu refúgio, o lado de lá do sonho, do vivido, do sentido e do evocado. Cá está toda a geografia sentimental e afectiva da ilha. Cá estão as ambiências impregnadas de insularidade e envoltas em atmosferas felizes e familiares. Cá estão os símbolos do amor e da fidelidade, tipificados nas figuras do avô e da avó, que surgem do fundo dos tempos como aparição de ternura no meio das ruínas da vida.

 

      Bem urdido e com apreciável frescura narrativa, Daqui até ao Verão é um conto de atenta observação do humano e é um livro singular e tocante – a merecer a nossa melhor atenção. 

 

Victor Rui Dores



27 de Agosto de 2010


Sobre Rapsódia Vegetal

de António Fernando Vieira Lucas da Silva 

 

     “Isto já foi muito animado e rico. Tudo à volta da Horta e dos Flamengos eram casas, quintas cheias de laranjas, de plantas e flores, a quinta de S. Lourenço, a quinta da Silveira, a quinta dos Dabney, depois abandonadas quando a Inglaterra deixou de comprar os frutos no Faial indo buscá-los ao Cabo”.

Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas 

 

O desenvolvimento económico dos Açores tem sido feito por e através de ciclos: logo nos séculos XV e XVI viveu-se o ciclo dos cereais, sobretudo do trigo que fez dos Açores “o celeiro de Portugal” e, paralelamente, assistiu-se ao ciclo do pastel e da urzela, plantas tintureiras cujo cultivo se ficou a dever aos flamengos. O pastel fornecia corante azul escuro e a urzela, pertencente à família dos líquenes, permitia a coloração vermelho-violeta.

 

     No Livro 3 de “Saudades da Terra”, Gaspar Fructuoso refere que o flamengo Van der Haegen (Silveira) carregava navios com pastel e urzela para a Flandres e para a Inglaterra. De realçar a importância destas plantas numa época muito anterior à descoberta dos corantes químicos para dar coloração aos tecidos.

      Depois, a partir do século XIX, assistimos ao ciclo da moagem (os moinhos de vento foram, por assim dizer, a primeira “indústria” açoriana), a que se seguiram o ciclo da laranja, o ciclo da vinha e o ciclo da baleia.

     Os autores e viajantes do século XIX e primeiro quartel do século XX deixaram testemunho escrito sobre estes ciclos económicos, sendo de realçar as muitas referências feitas às quintas, pomares, hortas e ao exotismo dos jardins da família Dabney, nomeadamente quando aludem às residências da “Bagatelle”, “Fredónia” e “Cedar´s House”. A recente publicação dos 3 volumes dos Anais da família Dabney no Faial veio trazer nova luz sobre a presença desta importante família norte-americana entre nós. Ficámos a saber, por exemplo, que foram os Dabneys que introduziram as araucária nos Açores a partir do Faial.

 

     O século XX será caracterizado, no arquipélago, pela prevalência do ciclo da agro-pecuária e, mais recentemente, um novo ciclo económico de desenvolvimento tem vindo a abrir-se: o do turismo.

        Este brevíssimo contexto histórico serve para melhor percebermos o opúsculo intitulado Rapsódia Vegetal (edição de autor, 2010), de António Fernando Vieira Lucas da Silva, faialense que ama incondicionalmente a terra, cidadão dotado de uma consciência ecológica e acérrimo defensor do património natural.

       Falando da sua experiência pessoal, o autor vem recordar-nos que, num passado recente, o milho, o trigo, a beterraba, o tabaco, a chicória, a cevada e o milho canarinho constituíram as plantações mais importantes do Faial, com relevância em termos económicos e sociais para a ilha, sendo que a fruticultura chegou, de igual modo, a ter aqui alguma expressão e importância.

      Recorrendo ao conhecimento empírico, e fazendo abordagens que estão muito próximas de “O Seringador”, “O Borda d´Água” e outros almanaques congéneres, esta Rapsódia Vegetal vale pelo que tem de útil repositório de informações, opiniões, recomendações e sugestões.

     O autor escreve falando connosco: refere as dificuldades com que se deparam os agricultores; tece considerações sobre algumas técnicas de plantação da fruta, precisando as épocas próprias para o fazer; fala-nos dos benefícios da fruta na nossa saúde (“An apple a day keeps the doctor away”); historia, classifica e caracteriza frutos e plantas; dá contributos sobre como vindimar e achegas sobre adubação, sulfato e podas; avança com algumas curiosidades. Por exemplo: que se deve semear ervilhas e feijão no enchente da Lua; que a hortelã afasta as moscas; que o sr. José Baleeiro ainda faz chinelos de casca de milho; que houve um tempo em que os sabugos serviam de papel higiénico; e que ainda bem recentemente se cultivava mil canarinho com a finalidade de se construir vassouras.

 

     Para ilustrar as suas observações, António Fernando Vieira Lucas da Silva recorre à fraseologia popular (“O rabanete vai à mesa do rei”; “O feijão quer ver o dono sair da terra”; “A uva é a fruta do sol”; “A laranja substitui o sol de inverno” (porque tem vitamina C), bem como ao adagiário: “Maio maião, ganhas na cana mas não ganhas no grão”; “Até São João se semeia pão”; “Até S. Pedro da vinha tem medo”; “Em S. Martinho, vai à adega e prova o vinho”; “Na vinha a rebentação de Março vai ao cabaço, rebentação de Abril vai ao funil”…

 

     E, volta e meia, o autor é tocado pela emoção poética quando escreve:

     “Como bonito era ver as searas na nossa Ilha, então quando o trigo estava perto de ser ceifado e fazia um pouco de vento, formava pequenas ondas mágicas e douradas que produziam uma doce canção de embalar.” (pág. 30)

 

     A vegetação do Faial de há muito que tem vindo a ser alterada, já que a área de distribuição de floresta primitiva deu lugar aos aglomerados urbanos, campos agrícolas e áreas de pastagem. Nesta matéria, o século XIX foi determinante com a introdução, no arquipélago, de plantas exóticas, tais como o incenso, a roca-da-velha (ou conteira), a fona de porca, o chorão, a cana e a hortênsia que vieram aumentar as ameaças à nossa flora natural e endémica, nomeadamente o cedro-do-mato, o louro, o azevinho, o queiró, a azorina vidali, os fetos entre outros. Tomemos a hortênsia como exemplo: originária do Japão, a hortênsia é, sem dúvida, muito vistosa e bela, mas é uma infestante e uma invasora e, por conseguinte, dá cabo da comunidade endémica. 

     Ser ecológico é muito mais do que gostar da natureza – é ter consciência de todas estas dinâmicas. Por isso quero saudar António Fernando Vieira Lucas da Silva, que se identifica com a flora e valoriza o património vegetal, e, por isso, luta para que o Faial não seja esquecido nem se apague no mapa da globalização.

     Recomendo vivamente a leitura desta Rapsódia Vegetal porque nela encontramos dados de interesse geral e sugestões que são verdadeiramente úteis. 

 

 

Victor Rui Dores 



14 de Agosto de 2010


Sobre Andanças de pedra e cal,

de Álamo Oliveira  

 

 

     Artesão de palavras sempre em busca de novas significações para as mesmas, poeta telúrico de agudíssima sensibilidade e apreciáveis recursos sensoriais, Álamo Oliveira é um dos nomes mais representativos da açorianidade literária. E, nos seus 34 livros até agora publicados (e bem cuidados), este autor persegue as palavras certeiras, no seu modo (insulado) de olhar as coisas, de as reflectir e transfigurar. Senhor de várias artes, ecléticas escritas e múltiplos talentos, ele identifica-se, enquanto cidadão e escritor, com a ilha Terceira, seu microcosmo de referência, e capta, em prosa e em verso, o espírito do seu povo.

     A poesia é tanto mais importante quanto mais se confunde com a vida. E falar de Álamo Oliveira é falar da íntima ligação entre a vida e a escrita. Isto é, da integridade viva do real, da sua essência infinita e concreta que o habita, que o assombra, que o renova. É esta dimensão do amor à terra e do desejo da viagem que faz deste terceirense um poeta sui generis – ele que já foi insuportavelmente barroco e sufocantemente rebuscado… Com o tempo, Álamo encontrou o equilíbrio formal, descobriu o domínio da economia do verso e a requintada arte de finalizar o poema, sendo que um constante sentido de rigor e de vigilância orientou a demanda de uma linguagem depurada e erguida sobre a palavra exacta e essencial. Resultado: o percurso poético de Álamo tem sido sempre de sentido ascendente.

 

       Duas circunstancialidades rodeiam a génese dos poemas reunidos neste seu último livro, Andanças de pedra e cal (BLU edições, 2010): o autor empreendeu, nos últimos anos, viagens (reais e imaginadas) por terras europeias, brasileiras e americanas (Eu próprio pude testemunhar o seu “exílio” pessoal em Berkeley, em 2002), sendo que das impressões e experiências colhidas dessas viagens resultaram os versos que constituem a primeira parte do livro, com o título de “andanças”; por outro lado, a segunda parte da obra, intitulada “de pedra e cal”, reúne poemas que já haviam sido publicados no álbum Memórias de Ilha em Sonhos de História, poemas esse escritos para dar respiração a uma série de serigrafias do artista plástico Álvaro Mendes – são olhares (com denso conteúdo poético) lançados sobre determinados monumentos e espaços da ilha Terceira.

     Por conseguinte, este é um livro dispersivo, de itinerâncias e peregrinações, atravessado por olhares, impressões, alusões, afectos e imagens. Estamos perante a revisitação mítica da viagem, ou, se quisermos, da geografia afectiva de lugares, memórias e coisas que povoam o imaginário de Álamo Oliveira, isto é, tudo aquilo que lhe ficou suspenso na memória e é, aqui, matéria de evocação.

       Tematicamente este livro traz a novidade de uma concepção estética universalizante: o poeta decifra o enigma dos dias e viaja da Ilha para o Mundo, funcionando a Ilha como uma alegoria ou uma metáfora do Mundo; e isto porque estando o poeta condicionado pela distância e pelo apartamento, necessário se torna um diálogo entre a Ilha e o Mundo.

     Por isso estes são versos forjados à luz da observação do real, do vivido e do sentido, do “cá” e do “lá”, num jogo poético do mítico e do simbólico. Os poemas condensam, en passant, a condição insular nas suas vertentes geográfica, humana, histórica e cultural. O poeta colhe impressões do que vê, sente e pensa e, viandante anónimo, procura na viagem não o destino, mas a sua própria natureza. Mais do que uma viagem física, trata-se aqui daquela que ele, poeta, empreende em busca da sua identidade e do encontro consigo mesmo e com os outros.

     Aliás, a arte poética alamiana tem precisamente como duas grandes linhas de força a íntima ligação do homem com a terra-mater insular, por um lado, e por outro, o drama antigo do partir ou do ficar. Neste livro, o autor assume o compromisso de partir, como pretexto para ver a ilha de fora, sendo que o desejo da viagem é uma forma de procura e de descoberta, e a errância é a busca do sonho e da felicidade possível.

     Em Álamo Oliveira a poesia faz e faz-se. E o leitor mais atento e informado saberá que este autor revela grande domínio da escrita e mestria na composição poética. Apenas três exemplos retirados, ao acaso, do livro em apreço. Uma prosódia prenhe de poeticidade: “só sabiá sabia que não sabia desafiná” (pág. 29 ); a depurada limpidez de uma bem conseguida sonoridade: “no rio é sempre Janeiro. mas caem águas de março/ na cachoeira de versos enfiados na saudade como missanga (pág. 28); a ironia: “todo o ano é santo em são francisco e/ por vezes o pacífico não é tanto” (pág. 26).

     Gostei incondicionalmente desta poesia marcadamente lírica e destes poemas que são fugazes fulgurações. Porque encontrei, neste livro, a harmonia do mundo para lá das ruínas e das sombras do quotidiano. 

 

 

 

 

Victor Rui Dores 



9 de Agosto de 2010


O esplendor de Eduíno de Jesus!

“Caríssimo

O computador não está avariado, eu é que começo a adornar. Meti carga a mais, não a estivei devidamente, atafulhei tudo num bric-à-brac de sonhos e decepções a trouxe-mouxe, e agora não sei o que devo deitar borda fora para equilibrar o casco, ou se isso tão pouco é possível.

Quatro vezes passei o cabo dos 20 e nunca cheguei aprender a rota! Os almirantes, lá à proa, sabê-la-ão? A minha cerviz calcificada nem me permite espreitar, daqui onde estou, o sentido da viagem que se abre nas minhas costas. Envelheci grumete, nunca subi, uma vez que fosse, à gávea; e agora para aqui estou, sentado à popa, olhando o mundo a ficar para trás…

Um abraço

Eduíno”

(e-mail, datado de 1/10/2008, e enviado a Onésimo Teotónio Almeida, pág. 365)
Acabo de ler, de fio a pavio, o livro Eduíno de Jesus – A Ca(u)sa dos Açores em Lisboa, homenagem de amigos e admiradores (Instituto Açoriano de Cultura, 2009), organizado por Onésimo Teotónio Almeida e Leonor Simas-Almeida, casal unido na arte e no afecto.

De afectos e com afectos está este livro escrito. Trinta e quatro autores dão, nas páginas desta obra, público e vivo testemunho da importância de Eduíno de Jesus – um autor que, na minha opinião, vale por toda uma literatura.

– Este é o “borracho” dos escritores açorianos! – foi assim que, em Abril de 1987, o poeta Álamo Oliveira me apresentou Eduíno de Jesus, no âmbito do 2º Encontro de Escritores no Solar de Lalém (na Maia do Daniel de Sá), nesse tempo em que havia tempo para os escritores celebrarem a vida, a amizade e a literatura.

Duas décadas depois, o sereníssimo e admirável Eduíno de Jesus, agora octogenário, continua a ser um “borracho”, isto é, possui essa capacidade inesgotável de comiseração e de ternura. E continua a ser, para muitos de nós, um raio de luz e um farol de saber.

Homem afectivo e modesto, professor aposentado, ensaísta profundo, poeta de primeiríssima água, intelectual rigoroso, dinamizador cultural e cidadão empenhado, o Eduíno é um sortido de cultura(s), fina ironia e sólidos conhecimentos. Solidário e acolhedor, dotado de uma infinita paciência, ele é igual a si próprio: agudo e arguto observador da realidade, extremamente cordial no trato, cumpridor e meticuloso, competente e minucioso, homem da perspicácia, da agudeza de espírito e da finura, um jeito muito fraterno de ser e conversar.

Interlocutor precioso e amabilíssimo, estar à conversa com o Eduíno é, efectivamente, receber uma lição de vida porque este homem entende inteligentemente o seu tempo e possui ideias claras e rigorosas sobre as coisas de que fala. Com ele aprendi que não se coloca o escritor de um lado e a obra do outro, mas que ambas devem ser entendidas como escuta, decifração e conhecimento. Dele tenho recebido crítica construtiva, natural, afectuosa, livre e segura, sem o tom pedagógico ou quase insolente de certos académicos que conheci durante os meus cinco anos de servidão na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa.

Ah, o inefável Eduíno dos colóquios e das conferências, resplandecente de sapiência e esplendoroso de enternecimento, com a sua voz mansa e os seus papelinhos na mão… É uma delícia para a mente e é um consolo para o espírito ler e ouvir este carismático pequeno grande homem, micaelense dos Arrifes e açoriano do Mundo! Ele tem essa capacidade de nos animar, no verdadeiro sentido etimológico da palavra, ou seja, de dar a alma.

E depois o Eduíno é aquele gentil cavalheiro de nobres e generosos sentimentos. Por exemplo: cumprimenta as senhoras sempre de beijo na mão, o que faz as delícias da minha mulher…

Homem de poucos deslumbramentos e de nenhumas complacências, o Eduíno é, por conseguinte, um “borracho” e uma ternura. Devolvo-lhe, neste escrito, aquilo que ele escreveu ao “poliédrico” Onésimo quando este completou 50 anos de idade, mas troco os 50 por 80: “Fazer 80 anos não é nenhuma coisa do Outro Mundo. Aliás, é mesmo uma coisa que só se faz neste mundo”.

O Eduíno será velho quando o for. Entretanto, e à semelhança do que já foi feito com a sua poesia, urge que ele (ou alguém por ele) recolha os muitos ensaios e estudos que tem dispersos em livros, jornais, revistas e outros periódicos, tendo em vista a sua publicação em vários volumes. A leitura das suas mensagens internéticas (capítulo III da obra em apreço) são disso um bom exemplo.

Pérolas linguísticas

Onésimo fez uma recolha da correspondência via e-mail por ele recebida de Eduíno de Jesus entre 2004 e 2009, e organizou-a em forma de diário. O resultado salta à vista de todos: os e-mails de Eduíno dirigidos a Onésimo (esse “impenitente passageiro em trânsito” (pág. 377), mostram os muitos e multifacetados conhecimentos do autor de Os Silos do Silêncio e são, por assim dizer, uma espécie de diário de bordo que se lê com infinito prazer.

Através deste diário de bordo acompanhamos o quotidiano de um homem que vive de palavras, para as palavras e com as palavras e que, devagar, devagarinho (nele é lenta a gestação da escrita), vai trabalhando uma série de projectos, dois dos quais hão-de fazer furor quando virem a luz da publicação: o Léxico Açoriano e o Arquivo de Autores Açorianos.

Do capítulo “Diário em e-mail” (que sublinhei até mais não), respigo estes saborosíssimos nacos de prosa que seleccionei e que aqui deixo à fruição do leitor.

“Hoje estou chateado sem saber porquê.” (pág. 191)

“Estou admirado com o teu inabitual silêncio, mas não o quebres se ele for de oiro.” (pág. 205)

“Enfim, que se lixem esses filhos da pátria que os pariu.” (pág. 211)

“Pelas esquinas, os partidos políticos, à falta de ideias, insultam-se recíproca e porcamente.” (pág. 205)

“Foi um fechar de festa com chave enferrujada”. (pág. 211)

“Ontem escrevi-te um e-mail que se volatilizou.” (pág. 213)

Assunto: “Nada de nada” (pág. 214)

“Em que parte do planeta estarás? Eu por mim andarei na Lua, como sempre fiz na vida.” (pág. 215)

“Os seus versos (Gilberto de Vasconcelos) eram banalmente ultra-românticos, mas de um ultraromantismo requintado em lume brando e, pior do que isso, parturejados sem dor. Não obstante, morreu tuberculoso, como qualquer verdadeiro poeta ultra-romântico.” (pág. 216)

“E quanto à nota biobibliográfica, não te afreimes.” (pág. 219)

“E tu por essa gentlemaníaca Inglaterra (…)” (pág. 232)

“Mas, sabes?, não me regozijo de ter sido sempre sincero. Perdi amigos por isso.” (pág. 258)

“Logo será a gala do aniversário da Casa dos Açores. Não vêm Laborinho nem Carlos César, que andarão nessa altura a laborinhar ou a cesariar por outras bandas.” (pág. 264)

“Não quebres a cabeça a procurar nessa selva obscura um trilho transitável” (pág. 268)

“As férias têm isto de negativo: acabam.” (pág. 283)

“Bem, ando (e não vejo porquê) com o astral em baixo. Isto não é em mim “nada de novo”, dá-me de vez em quando. Umas vezes corro as cortinas da alma e fico cá por dentro em retiro, fazendo contas à vida (que nunca dão certo…); outras, venho cá para fora, ou vou lá para fora (depende do meu ponto de vista na altura) e espanejo-me, cabriolo, retouço. Disfarço quando posso, mas às vezes os amigos dão por isso. Bom, agora estou numa de cortinas corridas.” (pág. 291)

“Por aqui faz frio por fora e por dentro da alma” (pág. 306)

“… a gente está sempre a tropeçar um no outro por essas esquinas do mundo”. (pág. 307)

“Quando eu era adolescente, a América era umas casas de madeira muito lindas por fora e confortáveis por dentro no meio de relvados verdíssimos com rapazes por ali andando a pé com bicicletas com muitos cromados pela mão, de um lado, e raparigas do outro lado, de sapatinhos rasos e soquettes e saias de organdi muito rodadas com laços azuis à cintura e um cestinho com a merenda que iam comer debaixo de uma grande árvore muito frondosa: as raparigas pareciam-se todas com a Deanna Durbin e cantavam como ela. Depois, já para o fim da adolescência, começo da juventude, as raparigas já tinham crescido na minha memória e os rapazes também, claro; eles fumavam aromáticos cigarros como os Philips Morris que comprávamos à unidade na loja do Sr. Figueiredo do Largo 2 de Março, elas levavam debaixo do braço as poesias de Lamartine ou de Musset (porque os poetas naquele tempo eram todos franceses, a América não tinha poetas)” (…) (págs. 331 e 332)

“Ainda um dia conto ir à Irlanda. Quem sabe? Hoje imagino essa ilha como uma imensa planície verde ondulante onde é preciso caminhar com cuidado para não pisar os gnomos que vivem por ali. Eles escondem-se debaixo da copa dos cogumelos à nossa aproximação, mas, mesmo que não se escondessem, a gente passaria sem dar por eles, pois o seu talhe é o de um polegar, mais ou menos. Chamam-se todos Patrick”. (pág. 340)

“A fisioterapia comigo não dá: fiz vinte sessões e fiquei vinte vezes pior. Psicoterapia… não imagino massajarem-me a alma. Primeiro, teriam de a encontrar; e, encontrando-a, tinham de lhe tirar radiografias, e como o fariam se a alma não é opaca para os raios X?” (pág. 346)

“Por aqui nada faz sentido. Vejo a vida passar como árvores por uma janela de comboio depressa e falsamente. Consulto o relógio que, noutro tempo, estava sempre atrasado, e agora vejo que é tarde.” (pág. 370)

“Por aqui o sem-saborismo do costume.” (pág. 379)

“Cessei com vagas melhoras o meu tratamento por acupunctura.

Gostava que a Terra fizesse a sua rotação completa mais devagar e idem o percurso da sua órbita” (pág. 379)

Enfim, deliciei-me com estes textos internéticos. A epistolografia tem os dias acabados? Com Eduíno, não. E quem disse que não se pode escrever literatura nas gloriosas auto-estradas da Net?

Longa vida a Eduíno! Que é de Jesus e nosso.

Victor Rui Dores



3 de Agosto de 2010


Histórias de uma paixão pelo mar,

de Manuel Mota e Pedro Oliveira

Manuel Mota é um andarilho do mar e um marinheiro do vento. Sempre em busca de viagens longínquas e rotas imaginárias. Um homem que, na linha da proa dos vários barcos que teve, contornou o sonho e velejou a aventura. No início em viagens costeiras, depois em incursões inter-ilhas e participação em várias regatas. Finalmente, fazendo-se valer de um capital de experiência acumulado, encetou a viagem de circum-navegação a bordo do veleiro “Oásis”, juntamente com alguns amigos.


Histórias de uma paixão pelo mar (Agora Comunicação, 2009) relata (pela voz de Manuel Mota e escrita de Pedro Oliveira) não só a aventura dessa viagem durante 20 meses: foram 36.000 milhas percorridas, 32 países visitados e muitas outras emoções de momentos inesquecíveis. Aqui também se fala da relação fascinada e afectiva que Manuel Mota sempre nutriu pelas suas embarcações. Porque a errância foi sempre o destino deste skipper micaelense, a sua forma de perseguir a felicidade maior e a liberdade suprema.


Victor Rui Dores



30 de Julho de 2010


Vaidade de Março, de Paulo Freitas

ou a solidão do poeta

Deste autor já aqui falei do seu livro Amores de raiva (1999), mas hoje trago à liça o livro que o trouxe para a poesia: Vaidades de Março (1998), numa altura em que ele contava 24 anos de idade, acabara de sair do Seminário de Angra do Heroísmo, escrevia ainda um pouco agarrado à forma, mas revelava já indiscutível talento poético.


A primeira coisa que se me oferece dizer sobre Vaidades de Março é que este não é um livro de vaidades; isto é, não estamos perante a lírica amorosa de um estudante em tempo de crise afectiva e sentimental e este não é um daqueles livros “precoces e precipitados” (a expressão é de Nemésio) que por aí abundam. Esta obra surpreende pela maturidade poética do seu autor, que exprime a sua tristeza e a sua solidão em versos bem carpinteirados, como neste soneto:


Andam meus dias tristes e acabados,

no chão rodopiando em desatinos…

Parecem chorar alto como os sinos

daquela igreja além, desentoados.

Andam meus dias tristes e curvados,

de mágoas e saudades tão divinos!

Parecem formar bando de meninos,

vestidos sempre igual, acinzentados!

Transformado na vida pela idade,

Como se o tempo fora em mim tecendo

Como lagarta o fio de um casulo!…

E na vida eu me vi envelhecendo,

perdendo a toda a hora a mocidade,

como se o tempo desse em mim um pulo. (pág. 18)

O que este livro nos apresenta é um “poeta magoado” e um “náufrago de alma e de cabeça”, que busca “transpor o transcendente”. E tudo isto através da expressão de um intimismo subjectivista (como forma de alheamento ou rejeição do mundo concreto) e de um pessimismo fatalista e decepcionado.

Rompem amargura, inquietação e angústia nos poemas de Paulo Freitas. Confrontado com “a vil Humanidade em podridão” e com “a vil doença”, o poeta parte em busca do sentido da existência e interroga a contingência e a transitoriedade do ser humano, buscando caminhos de libertação e liberdade.

Confrangido na solidão, o poeta vira-se então para a natureza, com a qual se identifica, isto é, consubstancia-se às coisas naturais numa afirmação panteísta.

Aqui também se fala da morte, não apenas a morte física, mas sobretudo a morte metafórica enquanto libertação, castigo ou perdão; daí a relação/oposição nascer/morrer, vida e morte.

Vaidades de Março também nos remete para uma poética telúrica, onde os símbolos insulares andam de mãos dadas com a açorianidade: mar, ilha, vulcão, vento, água, vendaval, mato, bago, hortênsia, bardo, prado, cais, barcos, etc.

Saúde-se este livro salpicado de memórias, emoções e afectos.

Victor Rui Dores



20 de Julho de 2010


O Homem e o Marembarcações dos Açores

 de João Gomes Vieira 

 

        Figura incontornável da ilha das Flores, João Gomes Vieira é um cavalheiresco homem de cultura(s), conversador nato dotado de miúda e graúda erudição, inquieto e irrequieto, lapa da ilha mas animado por uma curiosidade universal, sentencioso e humanista, possuidor de uma consciência crítica e de um finíssimo sentido de humor, voz rouca e olhos encharcados de luz marítima…

      Vivendo ao ritmo cadenciado de ondas e marés, este florentino dividiu a sua vida entre a carreira administrativa e o fascínio pelas coisas do mar. Ele é herdeiro de marítimas aventuras: quando menino foi tocado pelas histórias que ouviu da boca de velhos marinheiros da baleação americana; desde muito cedo aprendeu o sonho da viagem, e da família herdou uma tradição embarcadiça, revendo-se na figura modelar de seu pai que foi marinheiro e oficial baleeiro.

 

      Por conseguinte, existindo e resistindo, agindo e reagindo no microcosmo da sua ilha (espaço de muitas partidas e de poucos regressos), João Gomes Vieira sentiu sempre o apelo do mar, traduzido no desejo de evasão e na necessidade indomável de quebrar silêncios e distâncias. E precisamente por ser portador de um imaginário telúrico e de uma memória marinheira, começou a escrever O Homem e o Marembarcações dos Açores (edição de autor, Intermezzo-Audiovisuais, Lda., 2002), que daria por concluído 50 anos depois.

 

      Apresentando-se em edição bilingue (português e inglês, sendo que as traduções são excelentes), com esplendoroso aspecto gráfico, este não é um livro de circunstância, mas sim a obra de uma vida. De uma vida de trabalho e de contínua e continuada pesquisa nos domínios da historiografia e da antropologia marítima.

      Com apetecível Prefácio do escritor João de Melo, a que se segue avisada Nota Explicativa do autor, o livro arranca com a descrição de uma viagem “rumo ao alto mar”, que João Vieira Gomes efectuou na corveta General Pereira d´Eça, viagem essa (d)escrita em escorreita prosa diarística. A viajar nessa “fortaleza de aço”, o autor dá conta das actividades a bordo e reflecte sobre o mar e a epopeia marítima de um povo que, através da errância, buscou caminhos de felicidade e sonho. Simples pretexto, afinal, para escrever sobre as embarcações primitivas dos Açores (recorrendo a informações de autores que vão de Gaspar Fructuoso, António Cordeiro, Frei Diogo das Chagas, passando por Padre Manuel de Azevedo da Cunha e José Cândido da Silveira Avelar até a estudiosos e pessoas da actualidade), seguindo rotas por outros portos e outras memórias.

 

      João Gomes Vieira sabe que os barcos de que fala fazem parte da nossa memória afectiva e têm alma (1). Por isso mesmo, em plena era da fibra de vidro, lança olhares retroactivos (e fascinados) às embarcações que existiram e/ou existem nas nove ilhas dos Açores nos últimos 100 anos. E isto numa altura em que, dada a imparável marcha do progresso, a construção naval em madeira tem os dias contados. Procede o autor à inventariação de todo um património marítimo, escrevendo sobre embarcações tradicionais e contando histórias de homens do mar e da terra – gente de grande riqueza psicológica e funda expressão humana.

 

      Convirá  não esquecer que esses homens e esses barcos não são apenas homens e barcos – são pedaços da nossa cultura, da nossa memória e da nossa história.

      Bem documentado e informado, e através de uma muito bem conseguida fluência narrativa, João Gomes Vieira capta esse “espírito do lugar” (que compreende as 900 milhas náuticas quadradas do universo marítimo açoriano) e fala do tráfego local e cabotagem; recorda baleias, botes e baleeiros; analisa a pesca do alto e a recolha de algas marinhas; evoca embarcações de recreio e de aventura; não esquece os artistas que no mar buscaram inspiração; comenta aspectos ligados à construção naval; através de textos que lhe foram fornecidos pelo padre José Idalmiro Ferreira, traz à lembrança devoções marítimas e, a fechar o livro, apresenta-nos um preciosíssimo glossário baleeiro por ele recolhido na ilha das Flores.  

 

      Por outro lado há este dado inapelável: mais do que para ser lido, este é um livro para ser visto, tocado e contemplado. Tal é a impressionante e riquíssima iconografia nele contida. Importantes arquivos fotográficos (os de Coronel Afonso Chaves e de Cônsul Dabney, por exemplo), recolhidos junto dos Arquivos Públicos dos Açores e nos contactos pessoais com fotógrafos e particulares, aqui se apresentam à fruição do nosso olhar. Porque esta é uma obra que também deve ser entendida como objecto de prazer visual.

 

      Atravessado pela memória do vivido e do sentido, e escrito com grande poder evocativo, O Homem e o Mar – Embarcações dos Açores resulta da relação apaixonada e apaixonante que João Gomes Vieira, ilhéu com sede de infinito, sempre teve para com as coisas do mar e da terra. Um livro que, a partir de agora, passa a constituir uma referência e um marco incontornável no âmbito da etnografia marítima. 

 

 

Victor Rui Dores 

     

  1. Na minha qualidade de professor de línguas anglo-saxónicas, quero também crer que os barcos têm sexo: feminino. Por alguma razão os barcos ostentam, quase sempre, nomes de mulheres. Por algum motivo são femininas as figuras de proa. De igual modo não será em vão que, na língua inglesa, “boat” (barco), “ship” (navio) e “plane” (avião) são substantivos femininos, pelo que são precedidos do pronome pessoal “she”. Exemplo: She´s a beautiful boat.

          Recordo, aqui, o poema Os barcos, do meu amigo Mário Machado Fraião: “os barcos levam nomes de mulheres/ por elas nos consumimos/ e nos perdemos/ e nos reencontramos” (…).

          Julgo ainda que a associação barcos / mulheres ultrapassa os domínios do linguístico e do poético. E isto porque pessoalmente conheço mulheres que apetecem como barcos. E barcos que têm a sensualidade e a elegância de mulheres (é o caso das canoas baleeiras)… 
     



12 de Julho de 2010


O nascimento de uma paróquia

analisado por Mário Moura

  

 

      Em tempo de globalização e massificação, e numa era marcada pela mistificação e pela desidentificação, há, nas ilhas dos Açores, um punhado de estudiosos atentos à realidade local e dispostos a contribuir para a valorização histórica e patrimonial de tudo o que os rodeia. O micaelense Mário Moura é um desses historiadores locais que, numa linha de contínua e continuada pesquisa histórica, vem mostrar e demonstrar que é a partir da História local que se chega à História universal. De resto, e num outro contexto, já no-lo havia lembrado Miguel Torga: “O local é o universal sem paredes; (…) quanto mais local, mais universal”.

 

      Mário Moura é, pois, um historiador local que (re)visita e (re)escreve aspectos ligados à História da ilha de São Miguel e, no seu mais recente livro Nascimento de Uma paróquia – Nossa Senhora da Conceição (século XVII), fá-lo a partir do microcosmo da Ribeira Grande.

      Há  grandeza em ser-se historiador local. Gaspar Frutuoso, Frei Agostinho de Monte Alverne, Frei Diogo das Chagas, entre tantos outros que lhes sucederam, foram também historiadores locais e hoje não podemos passar sem eles.

 

      Não fora Mário Moura um historiador local e hoje não saberíamos, por exemplo, a história completa da paróquia de Nossa Senhora da Conceição da Ribeira Grande e desconheceríamos de todo o perfil de Matias Nunes de Melo, o seu primeiro vigário.

 

      Bem documentado e informado, Mário Moura dá, ao referido livro, tratamento criterioso e meticuloso. Estamos na presença de um estudioso bem apetrechado em termos teóricos e que possui capacidade de informar, esclarecer, decifrar e avaliar, ele que incorpora nos seus estudos os métodos e as preocupações dos mais diversos ramos da investigação histórica.

 

      Ao ler este ensaio, dou comigo a pensar que a estrutura moral dos açorianos deve muito ao clero. Com efeito, nestas ilhas, o padre, e também o professor primário, deram um contributo decisivo para a alfabetização e para o desenvolvimento cultural das nossas gentes. Os padres, mais dos que os professores primários, eram detentores de vasta cultura humanista; uns e outros não se limitavam a ensinar a ler, a escrever e a contar, foram também responsáveis pela criação de jornais, filarmónicas, grupos corais, ranchos folclóricos, grupos de teatro, tunas, agremiações desportivas e até actividades científicas. Lembro aqui o padre faialense Manuel José de Ávila (1851-1923), que foi meteorologista reputadíssimo.

 

      Sim, devemos muito ao clero, e logo desde os primórdios do povoamento: primeiro com os frades franciscanos e carmelitas e, mais tarde, com os jesuítas e capuchinhos, que para além da religião e instrução, nos deixaram outras influências igualmente importantes: a produção do vinho e aguardentes… (De igual modo ficamos a dever às freiras a nossa melhor doçaria conventual…).

 

      “É muito fácil construir igrejas; o que é difícil é meter Deus lá dentro”, escreveu o sociólogo norte-americano Toynbee. A história do nascimento e da construção da igreja de que, na referida obra, nos fala Mário Moura é bem esclarecedora dessa dificuldade, noutros tempos de escassos recursos.

 

      Este é, pois, um trabalho de investigação de grande interesse, documentado com importantes registos fotográficos. Ao lê-lo, fico a pensar que seria importante reconstituir uma história da arquitectura dos monumentos eclesiásticos açorianos, ou então uma História de Artes dos Açores. Porque foi através das artes que os açorianos deram respostas às eternas perguntas da vida. Temos que preservar o património escultórico religioso dos Açores, desenvolver os nossos recursos espirituais e salvaguardar o património artístico que os nossos antepassados nos legaram.

 

        Pergunto: o que se tem feito pela salvaguarda de todo o recheio das nossas igrejas? O espólio artístico nelas existente estará todo inventariado e devidamente acautelado?

      Em tempos de pirataria, houve muito espólio roubado, queimado e arruinado para sempre. É óbvio que também houve causas naturais para a destruição das nossas igrejas ao longo dos últimos 500 anos: convulsões vulcânicas, sismos, enchentes, tempestades marítimas, os altos índices de humidade, etc. Abundavam os incêndios nos templos e, à incúria do homem, juntava-se a sempre constante falta de dinheiro… Mas convirá não esquecer que, nos confortáveis tempos que correm, continua a haver por aí muitas outras formas de pirataria…

 

      Estejamos vigilantes e atentos ao nosso património.

 

      Defendo o princípio de que não há cultura nacional se não houver uma cultura regional. Por isso saúdo este trabalho exaustivo de Mário Moura, historiador local que continua à descoberta das nossas raízes, o mesmo será dizer, da nossa identidade cultural. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Victor Rui Dores



5 de Julho de 2010


Se ficares em meus lençóis, de Jayme Velho 

 

      Após ter publicado Quando os brandais cedem (Ponta Delgada, 1988) e Por detrás do embondeiro (Ponta Delgada, 1999), Jayme Velho – pseudónimo do médico Rui de Mendonça – deu à estampa Se ficares em meus lençóis (Ponta Delgada, 2002) e que, tal como os anteriores, se apresenta com excelente cuidado gráfico.

 

      Trata-se de um livro de vibrações e de fragmentos de vida vivida e de vida sonhada: a vivência auto-biográfica interage com a crónica; e a narrativa ficcionada interliga-se com a reflexão analítica. O autor (que é simultaneamente narrador e narrador-protagonista) navega sonhos e memórias em viagens reais e imaginárias.

 

      E a viagem deste livro começa com uma revisitação à infância insular enquanto passado irrecuperável e paraíso irremediavelmente perdido. Isto é, são-nos descritas vivências iniciáticas do narrador em pleno despertar para a vida, para a sexualidade, para o conhecimento das coisas e para o mundo. Vivendo no microcosmo da ilha, o narrador recorda os verdes anos e a sua relação fascinada e inocente com os outros: a mãe, o pai, os irmãos e outros familiares, mas também gente castiça que ele conheceu de perto e que faz parte do seu imaginário e da sua memória afectiva: o Herculano, o Anatólio, o José da Rosa, o Chico da Charra, o José da Avó e outras personagens (de grande riqueza humana) que surgem do fundo dos tempos como uma aparição de saudade no meio das ruínas da vida.

 

      Da Rua Nova e das tropelias da infância, passa-se à “crise do acne” da adolescência e à inquietação de quem, nas primeiras rajadas de vida pré-adulta, vive dividido entre alegrias e dúvidas, sonhos e desejos, raivas e frustrações, separações e reencontros. São as memórias do liceu, dos primeiros amores, de atmosferas felizes e familiares, da pistola de zagalotes de atirar aos pássaros e de tantas outras aventuras…

 

      Já  na idade madura, convida-nos o narrador a partilhar momentos de felicidade por ele vividos em viagens efectuadas pelo mundo, através das quais (re)colhe ensinamentos proveitosos e inesquecíveis impressões.

      E há a considerar este dado inapelável: Jayme Velho dá-se bem com o universo feminino. Para ele a mulher é sempre esplendorosa e simboliza o mistério, o fascínio, o sonho, a volúpia, o pranto, a ternura, a salvação, a coragem, a verdade, o espanto, a paixão, a serpente… Estamos na presença de um autor que traça admiravelmente o perfil psicológico de personagens femininas e vai fundo na expressão do êxtase amoroso e erótico e na polarização do desejo totalizante. E que gosta de surpreender o leitor com desfechos imprevistos e imprevisíveis: é de antologia o acto de cópula por cima do presépio na narrativa “Um desastre natalício”….

 

      Atente-se, por exemplo, na minúcia da descrição pictórica e verdadeiramente literária do rosto de uma mulher (página 146):

 

      Saí apressado, estupefacto e tonto. A senhora do carro vermelho também saíra e com naturalidade foi ver os estragos que tinham resultado do acidente. “Nada de grave” disse-me como se não se tivesse passado nada. “Está magoado”? perguntou a ajeitar uma madeixa enorme do cabelo que lhe caía em cascata sobre a testa inteligente e os olhos claros que faiscavam poder. As sardas eram aos milhares numa tez escura como ilhas perdidas no mar negro. E o nariz que acompanhava de forma impressionante o traço triangular do rosto forte acabava por se fundir de forma harmoniosa com os lábios carnudos e trémulos sempre prestes a falar como veleiros nervosos na linha de partida à espera do tiro da largada. O carmim, o pálido, o escuro, o verde e o vermelho misturavam-se num conjunto forte duma pintura de traços vigorosos de génio inspirado”.

 

      Porém, sendo esta uma escrita de afectos e de outras nostalgias, é também ela um lugar de confronto e de ajuste de contas com aspectos relacionados com aquilo que em determinado tempo e local se viveu e experimentou. Escrever continua a ser, para Jayme Velho, uma forma de resistência, de denúncia das verdades ilusórias, de renúncia às máscaras de um quotidiano alienante e, sobretudo, de exorcismo da memória. E é curioso que este autor faça a sua catarse recorrendo quase sempre ao sonho, levando o leitor às mais fascinantes ambiências oníricas.

 

      É também pelo lado da memória interior que Jayme Velho lança olhares críticos às perplexidades do nosso presente, questionando os mitos do nosso passado recente e do nosso futuro incerto. E interroga-se sobre “a crise de líderes”, reflecte sobre pintura e pintores, fala no sopro de Deus, remetendo-nos para a analogia essencial que liga a criação divina à criação artística; ou seja, de que modo é que o artista se mede pela figura de Deus criador.

 

      Com capa e apetecíveis gravuras da autoria de Sérgio Luís (que acentuam o sentido de humor de algumas histórias), Se ficares em meus lençóis é também um belo livro sobre o amor e a solidão. Um livro bem disposto, bem carpinteirado e bem urdido, com um bom ritmo discursivo e apreciável frescura narrativa.

      É que vale mesmo a pena ler estas 166 páginas plenas de espessura evocativa e de atenta observação do humano. 
 

 

 

 

 

Victor Rui Dores



27 de Junho de 2010


A poesia toda de Emanuel Félix  

 

      Mantive uma (longa) relação de amizade e de cumplicidade com os poemas de Emanuel Félix (1936-2004), poeta autêntico, inteligente, exigente e fraterno. E sempre que os leio experimento uma alegria breve. Uma alegria breve que eu sei que vai durar para sempre. Aconteceu quando pela primeira vez li o poema “Five o´clock tear” e, mais recentemente, com os incontornáveis versos de “As raparigas lá de casa”. E isto para dar apenas dois exemplos.

 

      Os (furtivos) livros deste autor, porque raros, tornam-se por isso mesmo mais valiosos e apetecíveis: A fonte da saudade (1954), 7 poemas (1958), O vendedor de bichos (de que há duas edições, uma de 1965 e outra de 1971), As Quatro Estações de Vivaldi (1965), Sete poemas chineses (1967), Angra no último quartel do século XVI (1967), A palavra, o açoite (1977), A viagem possível (antologia poética, 1984), Seis Nomes de Mulher (1985), António Dacosta – esboço de um roteiro sentimental (1988), O Dragoeiro (Dracaena Draco da Macronésia) – chave da grande obra em Jerónimo Bosch (1988), Conceito e Dinâmica do Património Cultural (1989), O instante suspenso (1992), Os trincos da memória (crónicas, 1994), Habitação das chuvas (1998), The possible Journey – poems (1965-1992), em versão bilingue (Gávea-Brown, 2002).

 

      De resto, já o escrevi noutro lugar, referindo-me à qualidade e à beleza formal da poesia de Emanuel Félix: neste autor, o poeta e o restaurador trabalham em perfeita sintonia e harmonia. E isto porque o poeta assume o ofício de artesão de palavras, esculpindo-as e lapidando-as até à sua (possível) perfeição, com o mesmo amor e do mesmo modo com que o restaurador trabalha os materiais.

 

      Nascido em Angra do Heroísmo, a 24 de Outubro de 1936, senhor de várias artes e de múltiplos talentos, este autor é, acima de tudo, poeta. Mas também intelectual, ensaísta, autor de crónicas e de contos, psicopedagogo, crítico literário e de artes plásticas, desenhador, pintor, conferencista… e tudo. Fundou (em 1958) e foi co-director da revista Gávea. Entre 1967 e 1974 tomou parte, na sua cidade natal, de um importante movimento cultural que se verificou em redor do suplemento literário Glacial, do jornal “A União”. Recorde-se que este movimento mobilizou à sua volta poetas, escritores, intelectuais e pintores. Em 1974/75 foi presidente da comissão administrativa do município angrense.

 

      Profissionalmente, Emanuel Félix começou pelo ensino (foi professor do ensino primário, leccionou Didáctica Especial na Escola do Magistério Primário e foi ainda professor eventual da então Escola Comercial e Industrial de Angra do Heroísmo),  tendo depois exercido funções de Técnico-Adjunto do Museu de Angra do Heroísmo e, mais tarde, de Técnico-Chefe do Centro de Estudo, Conservação e Restauro de Obras de Arte dos Açores, cargo de que se encontra já aposentado. Trabalhou no Instituto José de Figueiredo, em Lisboa, frequentou o Instituto Francês de Restauro, em Paris, a Escola Superior de Belas Artes de Anderlecht e o Instituto Superior de Arqueologia e História de Arte da Universidade de Lovaina. Estagiou durante longos períodos em museus de Paris, Ruão, Bruxelas, Liége, Amsterdão, Londres, Roma e Florença.

 

      Foi esta mundividência que ajudou a universalizar a poesia de Emanuel Félix, ele que é considerado um dos pioneiros do concretismo poético em Portugal, embora logo o abandonasse para dedicar-se a uma arte mais próxima do surrealismo. Experimentalismos à parte, a sua poética evoluirá depois para uma poesia, de envolvente fascínio e de grande beleza plástica e visual, que nos fala de fragmentos da vida vivida e da vida sonhada. Em poemas de uma permanente e perene modernidade.

 

      Precisamente porque possuidora e portadora de uma vocação universalista, a poesia de Emanuel Félix parte da ilha e projecta-se em espaços do universal. Esta é uma poética do amor e dos sentidos – que sente, pensa, sonha, viaja e age. Uma poesia que, viajando pelo mundo ocidental e oriental, ligada está às raízes comunitárias ancestrais da expressão poética no horizonte da nossa cultura europeia. Isto é, uma poesia mitológica, helénica, da civilização do sul, da luz, da emoção e da razão. Depurada, coesa, luminosa e plasticamente muito bela.

 

      A antologia Emanuel Félix, 121 poemas escolhidos (1954/1997), da extinta editora Salamandra (2003), está aí a provar isso mesmo.

 

Viva Emanuel Félix, digo, restaurador de palavras e excelente poeta!  
 
 

 

 

Victor Rui Dores



22 de Junho de 2010


Apontamentos apícolas,

de José  António da Silva 

 

       Há livros que são úteis. É o caso de Apontamentos apícolas (edição Adeliaçor, Nova Gráfica, Ponta Delgada, 2005), de José António da Silva.

     Sobre esta obra farei uma abordagem no âmbito da antropologia cultural e não numa perspectiva científica e técnica, pois que manifestamente não sou nem conhecedor nem especialista em apicultura.

      Feito este primeiro aviso à navegação, saúdo José António da Silva que revela o seu saber, a sua experiência, a sua prática e a sua sabedoria, ele que, com esta publicação, pretende justamente transmitir às gerações vindouras o muito que sabe sobre apicultura.

 

      Profusamente ilustrado e com excelente apresentação gráfica, abordando uma temática sem precedentes entre nós, Apontamentos apícolas constitui um manual de grande alcance didáctico-pedagógico, dividido que está em três capítulos: Colmeias (I), Calendário apícola (II) e Alguns conselhos úteis (III). Ao longo de 28 páginas, o autor lança olhares à floração e ao comportamento das abelhas, dando valiosíssimos conselhos sobre técnicas e modos de se proceder à montagem e à condução do apiário. E não só. Diz-nos também que “o homem é o pior inimigo das abelhas” (pág. 17/18).

 

      E é por aqui que tecerei algumas breves considerações, fazendo “cair a sopa no mel”…

      “O homem é o pior inimigo das abelhas” e é o pior inimigo de si próprio. Já dizia Plauto que homo hominis lupus (o homem é um lobo para o homem), numa alusão à ferocidade com que os homens procuram prejudicar-se mutuamente.

      Alguém escreveu que o homem se diferencia dos outros animais porque, contrariamente àqueles, come quando não tem fome, bebe quando não tem sede e copula em todas as estações…

 

      Predador de si mesmo, o homem é incapaz de entender a eficaz e eficientíssima teia de trabalho e de produção das abelhas: obreiras e operárias incansáveis, geómetras perfeitas! (Espantosos são os favos de células hexagonais). O homem é incapaz de perceber a complexíssima rede de organização e interacção das abelhas, insectos himenópteros e superiores!… (Convirá não esquecer que a abelha é a representação simbólica do trabalho).

 

      Mais difícil se torna admitir que as abelhas vivem entre si uma espécie de matriarcado… Vivem em sociedade com laivos de um perverso “feminismo”. A abelha-mestra, a rainha ou maioral é a soberana: é ela que manda e comanda; é ela que prevalece, pois tem a seu cargo a reprodução e preside aos trabalhos da colmeia.

      O macho, o zângão, depois de cumprida a sua missão, é absolutamente dispensável, descartável. E isto porque ele, após fecundar a fêmea, é expulso da colmeia pelas obreiras; incapaz de se alimentar e de se aquecer, acabará, mais tarde, por morrer de frio e de fome, ingloriamente…

 

      As abelhas são tudo menos sentimentais – quando uma delas volta do trabalho tão gravemente ferida que julgam não poderá já prestar serviço, expulsam-na implacavelmente.

      Não há sociedades perfeitas e as abelhas não constituem excepção. É, no meio de tanto trabalho, tanta produção, tanta organização e eficiência há sempre as vilãs a estragarem o arranjinho. Refiro-me às “pilhadeiras” que, segundo José António da Silva, “são abelhas transviadas dedicadas ao roubo e existem em todas as colmeias” (pág. 12).

 

       As abelhas não produzem apenas cera e mel – criam também um modo de ser e de estar em sociedade. Há um “espírito de colmeia”, tal como nas forças armadas há um espírito de corpo. Se não respeitarmos este “espírito de colmeia”, pagaremos as consequências de ameaça e perigo, picadas e dor… Nessa situação o mel pode rimar com fel…

      Desde a Antiguidade Clássica que é reconhecido o valor nutritivo do mel. E não só. Para muitos povos o mel era (e continua a ser) considerado como um dos mais eficazes afrodisíacos.

      Vejamos agora, através de alguns exemplos, como a abelha e o mel surgem na cultura popular.

      Na linguagem popular, “abelha” pode ser: uma mulher astuta e esperta; dona de prostíbulo; pessoa que dirige outra com cuidado excessivo.

      Da abelha, resultou o adjectivo “abelhudo”. Uma pessoa abelhuda é uma pessoa intrometida, astuta, habilidosa.

      O mel no Adagiário:

      “Não há mel sem fel”.

      “As moscas mais se apanham com mel do que com fel”.

 

      O mel na fraseologia popular:

 

      “Por dez reis de mel coado” – por baixo preço, por uma insignificância, quase de graça.

      “Doce como o mel” – muito doce.

      “Fazer-se mel” – mostrar-se fraco, transigir.

      “Ser de mel” – ser dócil, calmo, meigo.

      “Dar mel pelos beiços” – procurar ser agradável a alguém, bajular, adular.

      “Cair a sopa no mel” – vir uma coisa a propósito, estar a calhar, ser oportuno.

      “Passar o mel pelos beiços” – agradar com fins vantajosos. 

      Termino, fazendo votos para que os leitores deste faial on line comam muito mel, sejam felizes e… haja saúde! 

 

 

Victor Rui Dores 



13 de Junho de 2010


Relação de bordo, de Cristóvão de Aguiar

ou a memória vasculhada 

“Viajo por dentro de mim e chego sempre à Ilha onde Ela ficou.”   

 

      Homem inquieto e irrequieto, escritor telúrico e intempestivo, observador infatigável e dotado de discernimento crítico, Cristóvão de Aguiar escreve com os olhos da memória.

      A sua trilogia romanesca Raiz Comovida A semente e a seiva (1978), Vindima de Fogo (1979) e O fruto e o sonho (1981) – é a prova disso mesmo: ali se dá conta da memória da infância açoriana, no microcosmo da Tronqueira, com gente de grande riqueza psicológica e funda expressão humana, de que são exemplos a avó Luzia, o avô José dos Reis, o Ti José Pascoal entre muitas outras personagens que falam com sotaque micaelense, sendo o(s) livro(s) servido(s) por uma escrita que mergulha fundo no húmus do discurso popular e vernáculo. (Recorde-se a propósito que, em 1987, Raiz Comovida foi publicado pela Editorial Caminho, em edição revista e remodelada num só volume).

 

      Todas as obras de Cristóvão de Aguiar são atravessadas pela memória do vivido e do sentido. Há efectivamente uma memória que escreve este autor, quer na sua poesia – Mãos vazias (1965), O Pão da palavra (1977), Sonetos de Amor Ilhéu (1992) –, quer na ficção narrativa, sendo nesta última que este escritor tem dado melhor conta de si.

      Cristóvão de Aguiar é, acima de tudo, um romancista. Para além da já referida Raiz Comovida (sem dúvida a sua obra emblemática), escreveu outros livros, cujos géneros literários ele vai classificando de forma criativa e da seguinte maneira: Ciclone de Setembro (1985), “romance ou o que lhe queiram chamar”; Passageiro em trânsito (edições de 1988 e 1994), “novela em espiral ou o romance de um ponto a que se vai acrescentando sempre mais um conto”; O braço tatuado (1990), “narrativa militar aplicada”; Um grito em chamas (1995), “polifonia romanesca”; e, agora, Relação de bordo (1999), “diário ou nem tanto ou talvez muito mais”.

 

      Há  três grandes vectores que atravessam toda a obra de Cristóvão de Aguiar: a memória insular, a emigração e a guerra colonial.

      Para melhor conhecer este autor e a sua escrita, convirá aqui avançar com alguns dados biográficos.

      Luís Cristóvão Dias de Aguiar nasceu no dia 8 de Setembro de 1940, na freguesia do Pico da Pedra, ilha de S. Miguel, e aí viveu até aos 20 anos de idade. Cresceu num ambiente familiar completo de avós, tios, primos e vizinhos. Deles ouviu histórias que lhe regalavam a imaginação nos serões de Inverno. A oralidade exerceu sobre ele uma influência decisiva: neto e sobrinho de poetas repentistas, o avô era tanoeiro, o pai serralheiro e a mãe era dada às poesias – com todo este “pecúlio afectivo e humano” estava destinado a ser escritor.

 

      Concluídos os estudos liceais em Ponta Delgada, no Liceu Antero de Quental (onde foi aluno de Armando Côrtes-Rodrigues e Ruy Galvão de Carvalho), Cristóvão de Aguiar embarcou para o continente, em Outubro de 1960, “com duas malas cheias de roupa e de muitas ilusões”, conforme nos relata em Relação de bordo:

      A ilha foi comigo e comigo permaneceu até hoje, como companheira fiel. Foi então que a compreendi! A distância traz-nos a nitidez das coisas e das pessoas”. (p.

 

      Estudante em Coimbra, sofre “fortes abalos sísmicos afectivos”, anda transviado pelos caminhos da vida e da literatura e vive a agitação cultural que eclode nos anos 60. Interrompe os estudos por causa da tropa. Faz a recruta em Mafra e, depois, parte para a Guiné, onde viverá, durante quase dois anos, a “patriótica estopada”, isto é, a dolorosa experiência da Guerra Colonial. Dessa guerra e dos retroactivos da sua memória, dão conta os livros Ciclone de Setembro e O braço tatuado.

      Regressado da Guiné, fixa residência em Coimbra, em cuja Faculdade de Letras conclui a licenciatura em Germânicas, desenvolvendo depois actividade como professor e tradutor. Pai de três filhos, entrega-se à “lavoura das palavras” e vive a dúvida e a inquietação da escrita. Escreve ele na sua Relação de bordo:

      E quanto mais leio o que escrevi, mais insegurança sinto”. (p.   )

 

      Em 1978 dá à estampa Raiz Comovida, que viria a receber, nesse mesmo ano, o Prémio Ricardo Malheiros e a merecer, três anos mais tarde, uma crítica elogiosa do temível e temido João Gaspar Simões, no jornal “Diário de Notícias” (2 de Abril de 1981), que ficou deslumbrado com o “pitoresco léxico” da obra.

      Aquele exigente crítico, referindo-se à originalidade linguística e à técnica narrativa de Raiz Comovida, nomeadamente à assimilação de uma linguagem estritamente popular, ambientada no espaço geo-social micaelense, escreve que Cristóvão de Aguiar “é ágil e forte na linguagem” e considera-o “mestre na invenção de ambientes”.

 

      Outros reputados críticos e escritores acolhem Raiz Comovida da melhor forma, entre os quais se destaca Urbano Tavares Rodrigues, Fernando Namora, José Manuel Mendes, João de Melo e Vasco Pereira da Costa.

      É chegada agora a altura de lançar alguns olhares ao livro Relação de bordo (Campo das Letras, 1999), dário que Cristóvão de Aguiar escreveu entre os anos de 1964 e 1988. O autor deixa aqui a marca do seu indiscutível talento literário, demonstrando (à semelhança de Samuel Pepys, Jonathan Swift, William Byrd, ou, no caso português, de um Miguel Torga, ou de um Fernando Aires) que a escrita diarística não é um género menor.

 

      Relação de bordo é uma obra importante, por três razões maiores. Em primeiro lugar, porque nos informa sobre as ideias, as opiniões e as reacções de Cristóvão de Aguiar sobre as coisas, os acontecimentos e as pessoas de um tempo e de um lugar. Em segundo lugar, porque espalha alguma luz sobre aspectos relacionados com  alguns eventos que marcaram este país, contribuindo, assim, para que fiquemos a fazer uma ideia mais pormenorizada e, por isso mesmo, mais rica e mais perfeita do período em apreço. Em terceiro lugar, porque nos pôe em contacto com o estilo do autor, levando-nos a surpreendê-lo em estado puro e nascente, tal e qual ele surge no movimento despreocupado de quem não pensa na futura publicação.

 

      Por conseguinte, este livro vem contribuir para que o nosso conhecimento de Cristóvão de Aguiar – do homem, do seu estilo e de uma época específica – seja mais amplo e mais completo.

      De resto, o diário é um dos meios privilegiados de revelação das personalidades. A obra destinada à publicação e à publicidade rodeia-se de precauções para que não se corra o risco de se dizer mais do que se deseja. No diário (registo íntimo de pensamentos, atitudes, observações e experiências do escritor) é-se mais verdadeiro, no sentido de que se é mais natural e mais sincero.

 

      Em Relação de bordo, autor e narrador são entidades coincidentes. Cristóvão de Aguiar deixa neste diário olhares inesperados e originais sobre os homens, as coisas e os acontecimentos, fazendo um ajuste de contas consigo próprio (por vezes o eu do texto dá lugar a um tu judicioso e imperativo – a voz da sua consciência ?), com os outros e com o mundo. “Escrever é escrever-se”, disse Julia Kristeva. O escritor fala abundantemente de si e dos seus familiares: os que com ele vivem, os que ficaram na Ilha (a qual se lhe “reverteu em pedra alojada na vesícula”) e os que se encontram emigrados.

 

      Aliás, a (numerosa) família de Cristóvão Aguiar possui uma “tradição embarcadiça”, movimentando-se por espaços dos Açores, do Continente português e das Américas. Ao lermos este diário, estamos condenados a entrar na intimidade não só do autor, mas também dos seus familiares – de tal maneira eles se expôem e nos são expostos. Isto faz com que o autor circule num apetecível triângulo amoroso: a Ilha, Coimbra e a América. Vivendo na sua encantada e romântica Coimbra, ele recorda a Ilha namorada (e a “namorada da Ilha”) e escuta as vozes da avó Luz, do avô Anselmo, da mãe (que lhe escreve bonitas cartas) do pai (com quem mantém uma relação nada pacífica), do irmão Francisco e de muitas tias e primas. No dia 9 de Julho de 1979, referindo-se á sua herança sócio-cultural, escreve:

 

      O romance Raiz Comovida (…) não nasceu do pé para a mão: teve uma longa gestação, praticamente desde que saí da Ilha e comecei a compreendê-la com mais profundidade. Não é em vão que se nasce numa Ilha e se vive nela até aos vinte anos, para depois a deixar para sempre, na pele de um emigrante que sou, filho e neto de embarcadiços. Entre a parca bagagem de estudante, vinha também a minha Ilha, que, a pouco e pouco, se foi entornando para dentro de mim, transfigurando-se. Tinha sido nela que dera os primeiros passos, com muitas topadas (no verdadeiro sentido do termo), fora nela que aprendera, por dentro, o gosto amargo dos dias sujeitos e sem futuro, onde apenas floria a flor da esperança numa mítica América, paraíso atado na bolsa da imaginação e agarrado ao desejo, sempre à mão para qualquer eventualidade.

      No início da década de sessenta, Coimbra teve em mim o efeito de um tremor de terra dos mais elevados da escala de Richter. Foi um deslumbramento e uma bebedeira constantes, que me deixaram os miolos em calda de pimenta. O ilhéu-bicho-de-conta que era (e ainda sou) passou num repente a viver num mundo explosivo de sensações novas, que, de tão intensas e variadas, mal conseguiam assento no rústico universo que me deixaram em herança” (… p.   )

 

      Relação de bordo vale também pelos ecos que nos dá da génese dos livros do seu autor, à medida que vão sendo escritos. Ei-lo a questionar o seu próprio acto de escrita (que lhe causa angústia), a registar o “feed back” dos seus romances junto dos críticos e dos leitores. De resto, ele deixa-nos, neste diário, um perfil que se casa perfeitamente com o que se surpreende nos seus romances.

 

      Por outro lado, este livro é um animado filme mostrando cenas da vida vivida entre 1964 e 1988. Surpreendemos o autor (com o seu “feitio eriçado”) enredado em frustrações, amores mal sucedidos e súbitas paixões impossíveis… Aluno da Faculdade de Letras de Coimbra, vive atormentado com os estudos e alimenta a vaga ideia de vir a ser escritor. O seu primeiro livro de poesia, Mãos Vazias, não é bem recebido pela crítica… A tropa chama-o. Feita a recruta, parte para a Guiné. Temendo a morte em combate, pede à mulher que venha ter com ele – para lhe fazer um filho e, assim, deixar descendência… E é na qualidade de combatente da Guerra Colonial que escreve páginas magistrais dando conta dos angustiados e angustiantes dias de guerra:

 

      “… E eis-me aqui, diante de mim, nu, andrajoso, suplicante, a alma enregelada e crucificada na cruz destes dias sem nome. Nos olhos, uma fornalha de fúria e uma fome antiga não sei em que víscera, essa fome de séculos que é já grito milenário de todas as bocas em mim. Eis-me, pois, aqui, disparando bombas de palavras ao concentrado silêncio da noite. Eis-me aqui, tentando pescar estrelas no poço aberto do firmamento. Eis-me aqui, indefeso e nu, interrogando não sei que morto que vive numa parte de mim… Em frente de mim, nu e com o frio de todos os pólos, interrogo-me como se fosse réu e juiz ao mesmo tempo. E as palavras que ouço vêm da minha voz antiga, saída do mais fundo de mim, carregada de pedras e de cardos, que grita e se contorce, morre e ressuscita, e continuo, indefeso e nu, aqui em frente de mim…” (p.  )

 

      Este autor é mais prosador que poeta. No entanto, em Relação de bordo, exprime-se, aqui e ali, em poesia: de realçar os admiráveis sonetos O visionário e Alma dolente, bem como esse notável poema que dá pelo nome de Sentimento de um ilhéu encalhado na praia.

 

      Numa prosa nervosa e viva, Cristóvão de Aguiar comenta livremente e sem rebuços acontecimentos que marcaram os anos 60: dá conta da morte de Nikita Krutschov, manifesta-se contra as guerras do Vietname e do Ultramar; testemunha o impacto causado pela publicação do livro Praça da Canção, de Manuel Alegre; critica a apreensão, levada a cabo pela PIDE, da Antologia da Poesia Erótica e Satírica, de Natália Correia; entusiasma-se com o primeiro homem a caminhar sobre a lua; assiste, com sentido crítico e irónico, à queda de Salazar; desconfia de Marcelo Caetano; denuncia o regime, os vícios e os ridículos da sociedade…

 

      Depois vem o 25 de Abril de 1974, em que a revolução e a poesia andaram de mãos dadas na rua… Cristóvão de Aguiar descreve, com grande perspicácia, o impacto dessa revolução por todo o país, o derrube do antigo regime, a rendição da PIDE, os primeiros vagidos da democracia, a celebração do 1º de Maio…Atento e vigilante, reage criticamente à imprensa reaccionária (a do Continente, a das ilhas e a da diáspora), denuncia os movimentos separatistas dos Açores e da Madeira e lança golpes certeiros à “insular bazófia”… Aos microfones do Emissor Regional de Coimbra, vai relatando cenas da vida social, política e familiar. Ainda e sempre, vai reagindo, pela escrita, a um quotidiano cheio de “tão belas contradições”…

 

      Regressa frequentemente à ilha (há em Cristóvão de Aguiar um permanente desejo de a ela voltar), onde reencontra as raizes e revisita toda a geografia sentimental e humana ligada à memória da infância, seu paraíso perdido. Impressiona-se com a riqueza vocabular das suas gentes e regista: alpardusco (lusco-fusco), garetos (biscates), batacum (escorregadela), fiminha (fêmea), etc. Delicia-se a ouvir o Ti José da Costa a dizer, em Coimbra: “Estou-me consolando a apreciar lindeza tamanha”.

 

      O escritor efectua várias viagens aos Estados Unidos da América e fica impressionado com as contradições americanas. Ali vai encontrar “a mais requintada libertinagem” a par do “mais conservador puritanismo”. Desperta-o o “imigrês” e a aculturação dos emigrantes (tema que viria a desenvolver em Passageiro em trânsito). E é assaltado por preocupações de cariz universal:

 

      E se mudássemos de planeta ? O nosso já deu o que tinha a dar” (p.  )

 

  Neste autor está vivo o interesse vital da experiência humana, tanto como o interesse intelectual pelas criações do espírito.

      Prossigamos a nossa viagem pelo diário. Cristóvão de Aguiar é agora pai de três filhos (José Manuel, Artur João e Luís Francisco), marido afectuoso e cidadão responsável. Fala apaixonadamente do seu grande mestre Paulo Quintela, com quem privou de perto e de quem nos traça um retrato admirável. Aliás,  convirá recordar que Cristóvão de Aguiar é autor de um trabalho (de “nótulas biográficas”) de referência intitulado Com Paulo Quintela à Mesa da Tertúlia (1986).

 

      Recorda também outras grandes referências na sua vida: Miguel Torga, Joaquim Namorado, Fernando Namora, Luís Albuquerque e Mário Braga. Com igual paixão fala dos seus amigos do Liceu e dos seus “companheiros de República e da Guerra”: Antero Dias, Medeiros Ferreira, Viriato Madeira, Jorge Ormonde de Aguiar, Weber Mendonça, José Noronha Bretão (de quem nos dá inesquecível testemunho), entre outros. E dá conta de pessoas com quem convive(u) e que se lhe atravessaram na vida: Vitorino Nemésio, Aurélio Quintanilha, Natália Correia, Fernando Assis Pacheco, Baptista Bastos, Almeida Pavão, Dias de Melo, Manuel Ferreira, Pedro da Silveira, Rui Alarcão, Jaime Gralheiro, Louzã Henriques, Linhares Furtado, Fernandes Martins, Carlos Moreira, Zeferino Coelho, Vital Ferrão, Teixeira Ribeiro, Álamo Oliveira, João Afonso, João de Melo, Luís Fagundes Duarte, Marcolino Candeias, Vasco Pereira da Costa, Onésimo Teotónio de Almeida, Duarte e Ciríaco (o duo que popularizou o poema de Cristóvão de Aguiar intitulado Naufrágio, escrito a partir da melodia da canção tradicional terceirense Charamba), etc.

 

      Enfim, ao longo desta Relação de bordo – “o caderno das minhas contas correntes” –, Cristóvão de Aguiar vai (d)escrevendo acontecimentos que marcaram uma época (a par do interesse literário, há, nesta obra, uma importância sociológica que convirá não perder de vista). Por outro lado, através de uma escrita acutilante, contemplativa, impressionista, terna e rebarbativa, o autor vai exercendo alguma catarse relativamente às minudências da vida: as arrelias domésticas, as preocupações quotidianas, familiares e sociais e as muitas dúvidas que o assaltam. E tudo isto nos é dado de forma sincera e sentida, com mágoa e alegria, com amargura e esperança. Mas sempre com uma visão crítica e muito lúcida.

 

      Em Relação de bordo, Cristóvão de Aguiar escreve a falar. Com grande poder evocativo e boa capacidade expressiva. E lançando sobre as coisas do mundo um olhar profundamente humano e universal, ele que encontrou a salvação nas palavras e através da escrita.  

 

 

 

Victor Rui Dores 



8 de Junho de 2010


Já  não gosto de chocolates

    ou as vicissitudes da emigração 

 

      Ainda não se disse nem se escreveu tudo sobre o fenómeno social da emigração açoriana para longínquas paragens do Mundo. É certo que, quer na ficção, quer no ensaio, algum terreno já foi desbravado por alguns autores: Onésimo Teotónio Almeida, que em obras como Ah! Monim dum corisco, Sapateia americana e outras vai fundo no estudo da osmose linguística, da aculturação, do choque de mundividências, da identidade, dos conflitos sociais e dos preconceitos inter-grupais dos nossos emigrantes em terras do Tio Sam. João de Melo, havendo previamente teorizado sobre tais fenómenos, dá-nos em Gente feliz com lágrimas algumas páginas admiráveis sobre a diáspora açoriana. Escritores como Dias de Melo, Cristóvão de Aguiar, Emanuel Félix, Álamo Oliveira, Adelaide Baptista, Urbano Bettencourt, Vamberto Freitas, Marcolino Candeias, Vasco Pereira da Costa, Eduardo Bettencourt Pinto, Judite Jorge, entre outros, têm vindo a abordar e/ou a aprofundar, nas suas obras, esse mesmo tema.

 

      Há  quem diga que está ainda por escrever a tal obra de fôlego na ficção açoriana, capaz de integrar uma história da emigração que ficasse como paradigma da diáspora açoriana. Pessoalmente penso que, neste momento, essa tal obra está a ser escrita, aos poucos, pelos escritores açorianos.

       Já não gosto de chocolates (Salamandra, 1999), de Álamo de Oliveira, é um desses exemplo. Aqui a temática da emigração conhece um tratamento literário, já que o seu autor (o príncipe dos poetas açorianos) manipula as palavras com arte.

 

      Estamos perante o discurso de uma realidade humana. Joe Sylvia, aliás José  Silva, terceirense da Serreta, emigrado na cidade de Tulare, é um velho inválido (que arrasta a sua existência numa cadeira de rodas), de “peles flácidas e encarquilhadas, cabelos brancos e ralos”. Viúvo e afastado dos familiares (que o visitam apenas para cumprir calendário), vive a extrema solidão no quarto de um asilo e pressente a morte a rondar por perto.

      Insatisfeito, inadaptado e incompreendido, revisita tempos pretéritos, através da “desbobinagem e rebobinagem do passado” (pág. 194), isto é, de sucessivos “flash-backs” (para utilizar uma linguagem cinematográfica): “o colo materno da ilha” (pág. 195); a separação do lar antigo; as dificuldades da emigração, antes, durante e depois dela acontecida; os caminhos cruzados da vida; os conflitos no interior da família; a desagregação da mesma, etc.

 

      Rosemary, de origem mexicana e, por conseguinte, também ela emigrante, é  a empregada do asilo que cuida de Joe Sylvia, com quem mantém uma relação de grande solidariedade e cumplicidade. E aqui creio encontrar alguns paralelismos temáticos com o romance Em nome da terra (Bertrand, 1990), de Vergílio Ferreira. E isto porque o narrador-protagonista de Em nome da terra e Joe Sylvia de Já não gosto de chocolates têm algo em comum: ambos vivem a angústia da marginalização, a inquietação de um espaço fechado, a ausência dos familiares, a perturbação da morte… Ambos estão incapacitados fisicamente e, em consequência disso, dependem da ajuda de terceiros. Um exemplo bastante significativo: o banho e a consequente manipulação dos respectivos sexos (flácidos) a que ambos são submetidos por parte de empregadas maliciosas…

 

      Na “dignidade da sua aculturação” (pág. 113), Joe Sylvia questiona a América que assassinou John Kennedy e Martin Luther King, que enviou os primeiros homens à lua e fez a guerra do Vietname. Deixa de acreditar no sonho americano e, por isso, já não gosta de chocolates. (Na minha opinião, chocolate deve ser aqui entendido como um símbolo da abundância, do bem-estar, do el-dourado, da tentação, da perdição e da promessa americana). Resta ao velho a memória do vivido e do sentido. A memória da infância insular e o eco da voz inquisitorial do padre Meneses. A carta de chamada, o registo e a circunstância da viagem. O quotidiano de quem é emigrante, seus dramas e vitórias. A inadaptação a um mundo diferente e não aprendido. O conflito de gerações de sangue (Joe Sylvia não compreende os filhos, cidadãos e novos filhos da mãe-América)., isto é, confronto de idades, concepções de modos de vida, de educação, de vivências no microcosmo de uma comunidade dispersa e laboriosa.

 

      É imensa a minoria étnica, cultural e linguística que os açorianos representam em terras americanas. Daí a linguagem estereotipada dos nossos emigrantes: a tão conhecida comunhão de dois níveis linguísticos pela assimilação da fonia do inglês com a sintaxe e a semântica da língua portuguesa.

      Sem o rancho que foi o seu ganha-pão e com a família desfeita (a mulher, Mary, sucumbe a um cancro de mama; John, um dos filhos, é homossexual e morre de SIDA), Joe Sylvia vive perplexo perante o desconcerto do mundo e a “liberdade excomungada” da América. Não entende as mudanças entretanto operadas nos Açores e resultantes da revolução de Abril. E constata que os emigrantes continuam a ser injustamente apelidados de “moscas de Verão”…

 

      Já  não gosto de chocolates é um livro sobre amores e desamores e que fala daqueles que, fora do espaço insular, se sentem solitários, exilados, apátridas. A sua realidade é o trabalho “sem tréguas, nas fábricas, nos ranchos, nas firmas de construção ou de limpeza, onde o corpo se deixava castigar pela posse do dólar” (pág.107); “… esqueciam as regras inquebráveis do trabalho daquela América que lhes satisfazia as necessidades da barriga e alguns desmandos de conforto, mas que lhes sugava o tutano, abandonando-os em qualquer valeta logo que deixavam de funcionar” (pág. 108). Ser emigrante é também uma forma de resistência.

      Neste livro, há duas belas histórias de amor: a de Joe Sylvia  e Mary, no seu amor redentor e resistente; e a de John e Danny, no seu amor subversivo e homossexual. Ambas terão desfechos trágicos. Por isso são belas histórias de amor…

 

      Estas quatro personagens dão a este Já não gosto de chocolates uma grande dimensão humana. E bastam para confirmar o grande escritor que é Álamo Oliveira. 

 

 

Victor Rui Dores 



31 de Maio de 2010


Vulcão Aberto,

de António Silveira e Maria do Céu Brito 
 

                                                “Há um magnetismo

                                                profundo neste lugar,

                                                no dorso arqueado

                                                do vulcão aberto à

                                                cortante identidade

                                                das sombras (…)”  pág. 69 
 
 

      Saio do livro Vulcão Aberto (Observatório Vulcanológico dos Açores, 2007) com os olhos encharcados de tanta luz, de tanta cor, de tanto sonho…

      As fotografias, captadas por António Silveira, são de uma enorme beleza plástica e serviram de “leit motiv” à escrita eruptiva e intensamente telúrica de Maria do Céu Brito.

      Este é, pois, um livro de olhares e visões poéticas (com diversos ângulos de observação e enquadramento) lançados pelos autores ao Vulcão dos Capelinhos.

 

        Para António Silveira e Maria do Céu Brito, olhar é uma revelação, uma forma de procura e (re)descoberta de quem está no Vulcão dos Capelinhos não para ver paisagens, mas para sentir atmosferas…

       Sendo os vulcões insondáveis e misteriosos na sua formação e existência, optaram os autores por agarrar – e bem – o lado mítico e simbólico do Vulcão que constituiu o acontecimento que mais marcou a história açoriana do século XX e foi, há cinquenta anos, um marco importante no conhecimento dos Açores além fronteiras, pois que atraiu a comunidade científica e a comunicação social de todo o mundo.

      Vulcão Aberto é, hoje, essa “catedral de cinzas” (pág. 47), que esconde o turbilhão da lava e do fogo, a convulsão dos elementos, os escombros, a devastação, o pânico das gentes, o imaginário de um povo, a última arriada à baleia a partir do Porto do Comprido, o apelo de Américas distantes…

 

      Estamos na presença de um vulcão poetizado e sensualizado em imagens e palavras que se interligam, sendo umas a extensão e o prolongamento das outras. Por isso mesmo este é um livro de vibrações, sentimentos, estados de alma e memórias soltas. Ou seja, fotos e poema(s) são fragmentos luminosos, instantes fugazes e irrepetíveis que captam a “pulsação da terra, anterior a tudo” (pág. 66): cores (sobretudo o ocre), formas, rochas, pedras, matérias (indefinidas), texturas, recortes, falésias, escarpas, aves, casas soterradas, eróticas fendas, o Costado da Nau, o recorte da cratera, geometrias indizíveis, “sombras puras” (pág. 50), o mar a perder de vista, a erosão…

      Contemplativos e impressionistas são, por conseguinte, os olhares de António Silveira e Maria do Céu Brito. As fotos são verdadeiramente espectaculares e a escrita é eruptiva e metafórica, de boa ressonância musical, prenhe de poeticidade e de sedutora prosódia: as palavras deslizam em vogais abertas, jogando com as tónicas e átonas de sílabas apetecíveis. Eis Maria do Céu Brito no seu melhor. Depois de ter escrito sobre o chão de poemas e pinturas da marina da Horta (Poemas no chão /Poèmes en sol (BLU edições, 2005), a autora escreve agora o “chão calcinado” dos Capelinhos.

 

      Parabéns ao fotógrafo e à poeta que conseguiram captar essa “luz imemorial” (pág. 33), envolvente e bela e que nos remete para as regiões mais fantásticas do sonho. 

 

Victor Rui Dores

 

Post Scriptum: Um outro autor (invisível) escreve este livro. Trata-se do vulcanólogo Victor Hugo Forjaz, que assina um delicioso prefácio e nos oferece um preciosíssimo “Elucidário científico das fotografias”, o que muito valoriza o livro. 



24 de Maio de 2010


Ler, doce ler

ou as gralhas de Sérgio Luís 

 

      Não conheço nenhum livro que se pareça com este. Tal é o seu carácter inédito e a sua originalidade. Em tempo de muitas e desvairadas massificações, saúde-se desde já este Ler, doce ler, que marca uma diferença: a de ser assumida e propositadamente um livro de gralhas.

 

     O seu autor é Sérgio Luís, engenheiro e artista que, na cidade da Horta, vive e trabalha em permanente estado de desassossego criativo. Homem de muitos e multifacetados talentos, o seu nome está ligado à pintura, à música, ao teatro, à pedagogia rodoviária e (faceta ainda inédita deste autor) à poesia.

     É que não tenhamos dúvidas. O que nestas páginas lemos é trabalho de poeta. Porque só um poeta é capaz de mergulhar fundo nas palavras, para delas extrair novos sentidos e significações e, através delas, revelar sonoridades surpreendentes e escondidas.

 

     Sérgio Luís é, por conseguinte, um artesão de palavras, um manipulador de palavras, através das quais se aventura nos caminhos do trocadilho, da chalaça, da chacota e do neologismo, forçando o lapsus linguae, inventando a dislexia, caricaturando a frase feita, provocando e provocando-nos.

     Diariamente ao longo dos últimos cinco anos, nas páginas do extinto jornal Telégrafo (gralhas na memória), tem vindo este autor a pôr em causa o signo linguístico, brincando com o significado e com o significante, com o sintagma e com o paradigma, com a sintaxe e com a semântica.

 

     São essas centenas de gralhas que se reúnem em apetecível livro de bolso, para fruição nossa. Foram elas criadas por Sérgio Luís com o objectivo de comentar e ironizar factos e acontecimentos locais (faialenses), regionais, nacionais e internacionais ocorridos nos últimos cinco anos. O autor parece seguir a máxima do poeta latino Horácio que aconselhava: prodesse et delectare, isto é, “ser útil e deleitar”.

 

     O resultado salta à vista: para lá do prazer de leitura que em nós desperta a sua descodificação, estas gralhas são uma forma de solicitar a intervenção dedutiva, criativa e interpretativa do leitor. Ou seja, um desafio ao nosso intelecto, um apelo à nossa sensibilidade e um teste aos nossos conhecimentos. Até porque Ler, doce ler (cujo título é já em si um trocadilho de “Lar, doce lar”) está muito próximo da poesia visual e constitui uma experiência sem precedentes entre nós.

 

     “O riso é uma opinião”, escreveu Eça de Queiroz. Convirá não esquecer que estas gralhas não nasceram de geração espontânea, nem foram criadas a partir do vácuo. Elas são o resultado de uma outra forma de fazer humor e que se traduz nos  olhares críticos, irónicos e maliciosos que Sérgio Luís, intencionalmente, vai lançando sobre questões sociais, culturais e políticas, por um lado e, por outro, sobre as pessoas que, dentro e fora das ilhas, protagonizam o mediático quotidiano.

 

     Porque este é um livro que parte das ilhas e se projecta em espaços do universal. Aliás, algumas gralhas são feitas a partir de línguas estrangeiras.

Alguns exemplos:  

 

         Talent de rien faire

         Lady Died

         UNITED  STUNTS  OF  AMERICA 

         PAY  IT  AGAIN,  SAM

         My Fair Lazy

         WET  SIDE  STORY

         PORN  in USA 

Noutros casos, a gralha resulta da mistura do português e do inglês: 

      Dá-lhe que ainda SMASH

      Chamar os boys pelos seus nomes

      “Menina estás no WINDOWS”,  glosando a conhecida canção popular alentejana.

      Mari…Kisses! 

     Como resistir à transfiguração e à transgressão das palavras? Eis alguns exemplos retirados, aos acaso, de Ler, doce ler: 

           Erecções antecipadas

           A maralha da China

           O intestino marca a hora

           A ociosidade é a mãe de todos os vídeos

           Música lixeira portuguesa

           Chegar a bom parto

           Quem vê caras não vê  corrupções

           O Mário enrola na areia 

           Quem vai amar avia-se em terra

           Hérnia fiscal

           Contra flatos não há argumentos

           Laqueação das tropas

           Pôr o dedo na preferida

           O cherne da questão

           Toca o suíno, toca o suíno

           Ambrósio, apetecia-me algas 

     Winston Churchil costumava dizer que “uma piada é uma coisa muito séria”. Bem vistas as coisas, nenhuma destas gralhas é inocente, pois há aqui um claro propósito de apostar na ambivalência de sentidos. Tal processo decorre do já referido trabalho artesanal da palavra. De forma sucinta, classifiquemos as gralhas de Sérgio Luís em sete grandes grupos:  

  1. Gralhas ortográficas.

 

    Abuso de podar  (poder)

    Éguas furtadas  (águas)

    Febra aftosa      (febre)

    Escola Fecundária     (Secundária)

    O Humor da Pátria     (Amor) 
     

    2. Gralhas sintácticas e semânticas 

    Comichão Europeia   (Comissão)

    Viragens na Minha Terra   (Viagens)

    Ir a toque de taxa   (caixa)

    Deportados regionais   (deputados)

    Pomares nunca dantes sulfatados   (mares … navegados)

 

  1. Gralhas fónicas e fonéticas

 

    O gay vai nu  (rei)i

     Strip tísicas

     Tinanic, Tinanic

     Titapique

     Quem SADSAD

     O SUOR DO gOSTO

     Quem 60 NÃO 70 
 

  1. Gralhas por decomposição de palavras

 

    Maria É  lisa?  (Maria Elisa)

    JOSÉ  SERÁ  MAGO? (José Saramago)

    Nelson manda nela (Nelson Mandela)

    És tu Dante?

    Zita Se abre   (Zita Seabra)

    TÁXI-dependente

    MÁ  TEMÁTICA 
     

  1. Gralhas visuais

    E$PO ´98

    $egredo$ de Fátima

    reSIClagem

    Governo ADiado

    RTP/hÁ  ???

 
 

  1. Gralhas que resultam do neologismo

 

    Pulhítica  ( a política será uma pulhice?, pergunto eu)

    HEMICIRCO

    PAPARÓQUIA

    HORTOGRAFIAS (pinturas na Marina da Horta)

    BOICOITADO (toiros de morte em Barrancos) 
     

    7. Gralhas da ambiguidade maliciosa 

    Há  muitos ânus atrás

    Às duas por trás

    Herman Enciclo peida

    Star Traque

    Miccção Impassível  (o filme Missão Impossível) 

      Todas estas gralhas encerram conhecimento. Dois exemplos: 

                                               Saída de Senna 

      Para perceber esta gralha há que ter em mente o trágico acidente que vitimou o piloto brasileiro de Fórmula 1 Ayrton Sena, cujo carro não saiu de cena, mas saiu da pista… 

                                  harMÓNICA de beiços 

      Esta reporta-se ao escândalo sexual que envolveu Bill Clinton e Monica Lewkinski…

      Por conseguinte este é um livro para decifrar. Um livro experimental escrito por um escritor alternativo, que gosta de trocar as voltas às palavras. E a merecer, por isso mesmo, a nossa melhor atenção.

 

 

 

Victor Roedores 



12 de Maio de 2010


Viagens na Era de Onésimo 

 

      Sincrónico e diacrónico, conversador inveterado (habituado ao “falatório público”), viajante infatigável (“devorador de paisagens”), homem de humor e humores, professor de cultura e culturas, Onésimo é Onésimo: idiossincrático, irónico, voyeur, incatalogável.

 

      Onésimo Teotónio Almeida “escrevive” crónicas do quotidiano. Sou consumidor assíduo e atento dessas “petites histoires”. Delicio-me com elas e nelas colho cultura, informação, conhecimento e boa disposição.

      Há, na escrita deste autor, uma concepção hedonista que me agrada sobremaneira. E há qualquer coisa de raiz horaciana (aut prodesse aut delectare) e de estética barthesiana (“le plaisir du texte”) que sempre apreciei neste escritor micaelense  que é do Pico da Pedra e  é cidadão do mundo.

 

      Enquanto autor e narrador, Onésimo é útil e deleita e dá-nos prazer (hedone) e gozo. Ele diverte-se e diverte-nos, faz-nos rir e ri-se de si próprio, tendo como armas de arremesso uma sólida formação cultural, a ironia e o humor. Porque há um humor que escreve Onésimo. E uma mundividência que o caracteriza.

      Estamos, por conseguinte, na presença de um escritor atento ao real e ao risível das coisas. Movimentando-se nos círculos luso-americanos e fora deles, há em Onésimo a capacidade de vibrar com as suas sensações e as dos outros e de tudo olhar com um espírito ao mesmo tempo crítico, irónico e dialético.

      Vem tudo isto a propósito do seu livro Viagens na Minha Era (Temas e Debates, 2001) que reúne 68 crónicas (que ele chama de “dia-crónicas”) e que foram publicadas na revista Ler, no Jornal de Letras e  em outros periódicos entre 1997 e 2000.

 

      Nesta obra, Onésimo fala de muitas e múltiplas experiências e vivências e lança olhares (críticos e minuciosos) sobre o comportamento dos seus conterrâneos, seus pequenos gestos, suas relações pessoais e inter-culturais. Isto é, fala de pessoas, coisas e acontecimentos de lá – a L(USA)lândia, de cá (Portugal, Açores) e dacolá (outras geografias do mundo), revelando uma atenção quase minimalista ao pormenor, ao instante, à situação, à citação, à historieta ou anedota. Tudo coisas que ele viveu, testemunhou, sentiu. Em todo o lado por onde tem viajado. Na sua vida familiar, profissional e social: em casa, nos congressos, nas conferências, nos simpósios, nos aeroportos, nos restaurantes, nas festas, nos encontros e reencontros, no campus universitário da Brown, etc.

      Por outro lado, temos, por detrás destas saborosas crónicas, o professor universitário, o ensaísta, o estudioso, o intelectual que reflecte autores, livros, leituras e que questiona conceitos, valores e teorias. Sempre a estabelecer relações e comparações. E sempre com os Açores no coração.

 

      Gostei desta escrita diarística e automática, deste registo espontâneo de imagens (o cronista capta o momento único e irrepetível do flash fotográfico), deste discurso directo, comunicativo e afectivo. E depois há aquilo que em Onésimo é uma constante: o processo criativo de formação das palavras, de neologismos, a partir de estratégias da composição e derivação.

      Viagens na Minha Era aí fica a merecer a nossa melhor atenção. Um livro que se lê com prazer e proveito. 

 

 

 

Victor Rui Dores



3 de Maio de 2010


 Visões do Vulcão  

 

     Versos na Pedra (edição de autor, 1ª e 2ª edições, 2008), de Sérgio Luís, lança olhares contemplativos e impressionistas ao acontecimento que mais marcou a história açoriana do século XX: o Vulcão dos Capelinhos.

 

     Criativo de agudíssima sensibilidade, dotado de apreciáveis recursos estilísticos e linguísticos, Sérgio Luís escreve, neste livro, as sensações e os sentimentos que ficaram enraizados no imaginário dos faialenses: a angústia dos sismos, o turbilhão do fogo e da lava, a convulsão dos elementos, o pânico das populações, o sentimento religioso, os escombros das casas, a ruína dos campos, o apelo da emigração… E tudo isto nos é dado em poemas telúricos que são fragmentos luminosos, memórias soltas, instantes fugazes – ilustrados por fotografias de grande beleza plástica da autoria de José Fontes. O fotógrafo capta, em diversos ângulos de observação e enquadramento, a luz, o sonho e a cor destes versos fascinantes e eruptivos. Prenhes de poeticidade e de boa ressonância musical. 

 

Victor Rui Dores



26 de Abril de 2010


Dos sabores e saberes de Isaura 

 

      Folheio a 2ª edição (revista e aumentada) de As receitas da Isaura. A 1ª edição data de 2005 e de há muito se encontrava esgotada.

      Não preciso, pois, de vir aqui defender esta obra, pois ela impõe-se por si própria. Da sua leitura resultará, estou certo, a fruição de cheiros, temperos, paladares e sabores. Permito-me, tão somente, umas breves considerações que aqui farei não como cozinheiro que gostava de ser, mas no âmbito da antropologia cultural.

 

        A culinária faz parte da nossa tradição e do nosso património cultural e é, por isso mesmo, uma forma de cultura como outra qualquer. Até porque, pessoalmente, acho que é fácil traduzir um bom poema de Beckett, mas é bastante difícil fazer uma boa caçoila. Quero com isto dizer que a culinária é uma cultura, não é uma sub-cultura, contrariamente ao que por aí se escreve e diz.

 

      A culinária enquanto herança cultural chega até nós na segunda metade do século XV, com o intenso tráfego marítimo que traz a estas ilhas as armadas vindas do Continente Português e as naus regressadas das Índias que nos trazem, entre outras riquezas, as especiarias tão do agrado dos orientais: a pimenta, a canela, os cominhos, o gengibre, a noz-moscada, o pau de cravo, o açafrão, o colorau, etc.

      O que é curioso é que algumas dessas especiarias (o açafrão, por exemplo) chegam primeiro aos Açores (sobretudo a ilha Terceira) antes de atingirem a capital do Reino.

 

      Segundo dá conta Gaspar Fructuoso, nas suas Saudades da Terrra, a base de alimentação dos nossos primeiros povoadores partia do trigo (o milho só foi introduzido mais tarde), da batata, do leite, da carne e do peixe.

      No que diz respeito à carne soubemos ser, simultaneamente, reprodutivos, produtivos e criativos. Por exemplo, a alcatra da ilha Terceira é um sucedâneo da chanfana beirã, só que no Norte de Portugal é feita com cabrito e aqui com carne de vaca.

        É certo que a matriz da nossa cozinha é bem portuguesa, mas a forte influência local determinou algumas particularidades, sobretudo a nível dos pratos de peixe. Em tempo de “aldeia global”, julgo que é no peixe que marcamos uma diferença qualitativa nestas ilhas açorianas.

 

      Temos uma culinária tipicamente e especificamente açoriana. Mas temos mais do que isso: temos uma maneira de cozinhar e uma maneira de temperar. E temos esse segredo que não vem nos livros e que são os sabores e os saberes da mão que tempera.

      Vivendo em ilhas soubemos também assimilar o contributo estrangeiro e disso tirar proveito. Por exemplo, o bolo inglês que se faz aqui na ilha do Faial resulta da presença dos estrangeiros dos cabos telegráficos submarinos por estas paragens, Foram eles que entre nós introduziram produtos que por aqui não tínhamos: as frutas cristalizadas, as passas, as nozes, só para dar alguns exemplos. Mais tarde chegam-nos outros produtos vindos das Américas (as farinhas lácteas, por exemplo) e que fomos incluindo na nossa culinária.

 

      Os nossos hábitos gastronómicos resultam, pois, daquilo que herdámos e do que vamos assimilando. Mas há um dado inapelável: a nossa experiência e vivência de 5 séculos nestas ilhas.

      É certo: o fechamento das ilhas nem sempre nos foi favorável, mas há um factor que foi determinante sobretudo em termos de doçaria e bebidas: a clausura conventual. No Faial e no Pico foram os frades franciscanos, carmelitas e, mais tarde, os jesuítas que nos deixaram os segredos de como produzir os bons verdelhos e as boas aguardentes. E ficamos a dever às freiras a nossa melhor doçaria conventual. As freiras, oriundas quase sempre da nobreza, trocavam entre si as receitas levadas das casas paternas e requintavam-nas. Para além da doçaria e confeitaria, faziam também deliciosos licores. Até porque tinham tempo para isso. Muitos delas não estavam nos conventos por vontade e por gosto… Eram empurradas pelos irmãos mais velhos para que nada herdassem… (Ficou, aliás, famoso o célebre episódio do rapto de uma freira levado a cabo por um nobre inglês no Convento da Glória – no local onde é actualmente a Praça da República – e que viria a merecer o tema do romance Uma freira que pecou, de Marcelino Lima).

 

      Não fora a clausura conventual e hoje não teríamos, por exemplo, as covilhetes, as queijadas, as cavacas, os biscoitos de aguardente e o apetitoso “Pudim de Feijão dos Frades do Convento da Horta”, que a Isaura faz de forma primorosa e cuja receita consta no livro que hoje é aqui lançado.

 

      Atentemos no título. As receitas da Isaura não são receitas exclusivas da Isaura nem foram inventadas pela Isaura – são receitas que a Isaura, cozinheira de eleição e de primeiríssima água, recolheu ao longo de muitos anos de trabalho, registou, experimentou, recriou e agora divulga para proveito de todos nós.

      O livro está dividido pelos seguintes capítulos: Pão, Papas, Sopas, Peixe, Marisco, Carnes, Doçaria, Licores, Pratos Diversos, seguindo-se apetecíveis fotos de apetecíveis pratos disparadas por Luísa Rodrigues, a filha nº 5.

 

      Em termos temáticos este é um livro sem precedentes entre nós. Estamos perante um valioso contributo para o conhecimento da cozinha tradicional faialense.

      Não obstante tratar-se de um repositório de receitas, este livro não  é um mero receituário, pois ele traduz um modo de ser e de viver em comunidade. Ou seja, a autora fala dos hábitos gastronómicos dos nossos antepassados e de toda uma herança cultural que seria bom não perder de vista, nem de paladar… Aqui se fala das festividades profanas e religiosas e dos hábitos gastronómicos dos nossos antepassados em períodos de Páscoa, do Espírito Santo, do Natal, do Carnaval, das festas de S. João, etc.

 

      Por outro lado, Isaura Rodrigues conta-nos pequenas histórias que, servindo como ponto de partida para contextualizar alguns pratos, acabam por fazer um enquadramento sócio-económico e cultural de outros tempos marcados por dificuldades e adversidades vividas nestas ilhas.

      Nesse tempo o chicharro salgado era o conduto principal dos pobres. As assimetrias sociais permitiam que uma tal Dona Francisca, “senhora fina”, passasse descaradamente à frente das outras freguesas na compra do melhor peixe…

 

      E há a pobre Luísa que, em casa de um senhor engenheiro, descobre que a alface não é só comida de coelho, mas que também serve para fazer salada.

      E há a Tia Jacinta que come uma sanduíche sem saber o que é uma sanduíche.

      Nesse tempo os resfriados eram tratados com infusão de eucaliptos e chás de ervas caseiras.

 

      Hoje, na era da globalização, da massificação cultural, da padronização de comportamentos, e numa época marcada pelo “fast food” e pela consequente tendência para a obesidade, valerá a pena ler a história intitulada “Milho torrado” que assim começa: “Quando eu era pequena, lembro-me de uma altura em que passei fome com os meus irmãos na minha casa”.

      Esses eram os tempos em que se comia para viver. Hoje vive-se para comer. Até porque, com a abertura de uma grande superfície nesta ilha, os nossos hábitos alimentares têm vindo a mudar. E não para melhor. Estamos a comer mais em quantidade, mas não em qualidade, avisam-nos os médicos. Estamos a abusar do sal e das gorduras e a descurar as fibras, alertam-nos os nutricionistas. Por causa da má alimentação, do stress, do tabaco, do álcool e dos vícios dos tempos modernos, os nossos filhos podem viver menos tempo do que nós, ameaçam alguns cientistas.

 

      Como se isto não bastasse, paira sobre nós aquele ditado norte-americano que diz que “tudo o que é bom na vida ou é imoral, ou é ilegal, ou engorda”… Depois há o culto do corpo, as dietas absurdas das nossas adolescentes…

      A Isaura Rodrigues, neste livro, lembra-nos que antigamente só se comia bolo doce mais ou menos uma vez por ano… Hoje ingerimos açúcar diariamente.

 

      As gorduras e o “fast food” estão a dar cabo da nossa saúde… Pouparíamos dinheiro nos Ginásios se fizéssemos mais exercício e comessemos mais sopas, como os antigos. (Os antigos não engordavam porque se mexiam mais do que nós e, em termos físicos, trabalhavam mais do que nós). Hoje vamos às nossas praias e reparamos que há celulite nas pernas de raparigas com 18 e 19 anos quando antigamente uma mulher só padecia desse mal a partir dos 50 anos de idade…

 

      Ora, livrar-nos-emos de todos estes males se comermos o que vem neste livro. Daí a sua importância e oportunidade e, já agora e passe a publicidade, permitam-me que vos diga que o restaurante “A Árvore” é dos poucos restaurantes destas ilhas que cumpre a legislação vigente que obriga que todos os restaurantes possuam nas suas ementas pelo menos um prato típico. E o restaurante “A Árvore” possui vários pratos típicos, o que é de realçar e saudar a acção do Zé Manel, porque, afinal de contas, atrás de uma grande mulher há sempre um homem.

 

      Por conseguinte, este é um livro que nos deixa água na boca… Por isso vamos todos provar e comprovar as receitas da Isaura! Até porque, para ela, cozinhar continua a ser uma forma superior de arte. Saber comer também o é. Por isso, boa leitura e bom apetite.  

 

 

 

 

Victor Rui Dores



18 de Abril de 2010


Sonata Saudade – a Viagem 

 

      Inspirada em versos de Camões (Canção X), a Sonata Saudade para piano e violino, em quatro andamentos, foi estreada em 1915, na cidade do Porto, e é a obra emblemática de Óscar da Silva, pianista e compositor, nascido no Porto em 1870 e falecido em Leça da Palmeira em 1958.

 

      No contexto histórico da música portuguesa, poder-se-á dizer que a Sonata Saudade se enquadra na corrente estética do designado “Saudosismo” que, na literatura, teve em Teixeira de Pascoaes o seu mentor principal.

 

      O que é certo é que a Sonata Saudade deu visibilidade nacional e internacional a Óscar da Silva e, ciente deste facto, A. Cunha e Silva, depois de aturada pesquisa por um sem número de espólios, deu à estampa o livro, Sonata saudade – a viagem (edição de autor, 2004), onde traça o percurso das apresentações públicas daquela obra em diversos países e lugares, nomeadamente Brasil, Estados Unidos da América, Argentina, Uruguai, Madeira, Açores e Canárias.

 

      Com efeito, através de documentação, artigos de jornais e revistas, folhetos, cartas, bilhetes-postais, diários, dedicatórias, autógrafos musicais, programas, retratos, pinturas, caricaturas e desenhos, é-nos aqui apresentado um muito bem conseguido retrato biográfico e iconográfico de Óscar da Silva, bem como dos violinistas que com ele executaram aquela peça.

 

      Profusamente ilustrado e com boa apresentação gráfica, este livro constitui uma dupla viagem. Por um lado, temos as tournées efectuadas por Óscar Silva, isto é, a viagem geográfica pelos já referidos países e lugares (para o autor deste livro, aquele compositor é um “navegador de paquetes e navios”, pág. 13); por outro lado temos a viagem pelos teatros e outros locais onde a Sonata Saudade foi sendo interpretada ao longo dos anos. No caso do Faial, a apresentação da obra ocorreu no dia 2 de Março de 1922, no Teatro Faialense.

 

      Lancemos agora alguns olhares, necessariamente breves, sobre alguns dados biográficos do compositor em apreço e que importa reter.

      Óscar da Silva fez os primeiros estudos com Miguel Ângelo (Piano) e Artur Ferreira (Composição), partindo para a ilha da Madeira com os pais onde viveu durante dois anos. Fixa-se depois com a família em Lisboa, e inscreve-se no então denominado Conservatório Real de Lisboa. Vai escrevendo obras para piano e alcança enorme êxito como pianista em Portugal. Em 1892 com uma bolsa de estudo concedida por sua Majestade a Rainha Dona Amélia, segue para a Alemanha, matriculando-se no Real Conservatório de Leipzig. Prossegue estudos com importantes músicos e pianistas, incluindo Clara Schumann, viúva do compositor Robert Schumann, autor de quem haveria de receber inúmeras influências musicais. Em 1894 realiza a sua primeira tournée pela Europa e, a partir desse ano, toda a sua vida será uma viagem em torno das suas obras, tendo uma delas, a ópera D. Mécia, obtido vários prémios dentro e fora de Portugal. Escreve uma série de suites, marchas e hinos. Em 1930, com 60 anos de idade, decide ir viver para o Brasil, onde o espera a consagração e a penúria – a costumada desdita dos nasceram para ser grandes. 1951 marca o seu regresso definitivo a Portugal, onde virá a falecer 7 anos depois, sem que a Pátria mãe se ressentisse muito com isso.

 

      Saudemos pois este livro que vem resgatar um nome maior da nossa melhor música do século XX. E aguardemos a publicação dos livros que A. Cunha e Silva tem em preparação, dando assim continuidade ao estudo que vem procedendo sobre Óscar da Silva: Folhas d´Album – Madeira e Açores e Nostalgias do Brasil. 

 

 

 

Victor Rui Dores



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