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Açores 24Horas – Jornal Diário

30 de Maio de 2017


mirateca fringe foto Helder GonçalvesUm sonho, dois sonhos, todos os sonhos
por Carolina Cordeiro

 

 

Desde criança que projetamos sonhos. Todos os sonhos do mundo são apetecíveis e possíveis. Ser astronauta ou bombeiro, professora ou enfermeira era o sonho da minha geração. Hoje, o sonho passa pela diferença, pela visibilidade que se pode ter ou por tudo aquilo que se pode mostrar. E, entre um e outro, há o sonho de fazer mostrar o sonho de criança.
A criança que fomos cresceu e encanta-se com as imensas possibilidades que se pode ter com os avanços da tecnologia. A criança que fomos cresceu e sente saudades do encanto do seu tempo. A criança que fomos cresceu e colou um sonho antigo à modernidade da sua realidade: o sonho torna-se vivo.

Há cinco anos, eu e mais uma mão cheia de artistas sonhadores colocámos a expetativa na novidade dum projeto a quem poucos davam crédito. Fomos turistas numa ilha que desconhecíamos, artistas convidados para falar da sua arte, fomos público atento e em número imenso, em alma; fomos os assistentes do diretor, os assistentes dos técnicos do som, os assistentes dos assistentes que carregavam tudo o que havia para carregar e montámos o palco do evento seguinte, em qualquer sítio que abrisse a sua porta para ver crescer o sonho de um picaroto. Em dez dias, demos a volta à ilha, conversámos, parámos, rimos, lemos, escrevermos, dançámos e vimos tudo isso a acontecer. Vimos a montanha a desabrochar e a aumentar ainda mais de tamanho, à medida que a ela nos chegávamos e, perante o nosso olhar cativante, um olhar de quem sentia no coração e na pele, a magia de estar a participar no início de algo foi algo que há muito a nossa geração de artistas açorianos precisava. Foi o nascer do Azores Fringe Festival.

Cinco anos volvidos desse desembarque fulgurante do futuro nas nossas mãos, o sonho materializou-se. Melhor, dois sonhos concretizaram-se num abrir e fechar de olhos: o festival de artes dos Açores ganhava uma proporção internacional jamais vista e o passado voltava à vida, numa noite muito digna desse nome.
Numa celebração do quinto ano de levar a arte às pessoas, onde se viveu o abraço daqueles que nos últimos anos nos fizeram companhia; onde se sentiu a alegria de conhecer os novos artistas, abrindo-lhes a porta da família “fringena”; onde se sentiu o amor destas gentes pelo trabalho que desenvolvem com o seu barro, com as suas escamas, com as suas pedras negras ou com tudo aquilo que a Natureza lhes dá, eles recriam, transformam o nada em algo para que esse nada esteja presente em todos os instantes que nos deixamos absorver pela magnitude do sítio onde estamos — de pequenas freguesias a grandes encontros de autores.
Géneros diferentes, perspectivas distintas, modos de vida e de ver o mundo tão díspares que o círculo das 96 horas não bastou para dizer o quão salutar é viver nessa mistura heterogénea de palavras. Tudo à volta foi motivo de inspiração, foi elemento criador do erotismo da partilha, foi o mote da crítica realista das nossas antitéticas vivências. Todos os espaços foram hospedeiros dos novos livros, das novas frases criadas para sustentar o sonho que cada um tem de si e para si.

Dentro desse mar imenso das nossas artes, arte que nos sai pelos poros e nos cativa a energia para fazer mais e mais e ainda mais, nasce o fechar de um ciclo, uma emoção por demais forte para quem viu, lá atrás no tempo, outro sonho a nascer. De todos os eventos programados para este fim de semana literário, de todos os instantes proporcionados, onde cada artista abriu as suas portas, expôs a sua visão e do que sentiu, houve um que, a mim, me encheu de orgulho em vê-lo de pé e com uma energia inesgotável. A abertura da Paim Book House, em Stª Luzia, é o segundo sonho, tornado realidade, que vi acontecer, neste final de semana de maio.

De uma casa do passado, de uma promessa de família, nasce uma casa onde se respira arte, se consome arte por todos os sentidos do nosso ser e por onde se aprende a ser cativado pela beleza de se estar vivo. Há cinco anos atrás, a casa era um farrapo: chão a desabar, paredes sujas, tetos esburacados onde nem mesmo o brilho das estrelas, à noite, era encantador. Para mim, confesso, não o era. Mas eu não era a pessoa que queria ver o seu sonho ser realidade. Esse era o sonho do meu queridíssimo Manél. Um sonho que teve de lutar contra a racionalidade do séc. XXI, contra a dificuldade da economia regional e contra o pressuposto do que as coisas deveriam ser. As coisas devem ser apenas aquilo que nós querermos que elas sejam e este nicho de cultura é aquilo que o seu sonhador quis que fosse. E chorei. Deus, como chorei ao reentrar, novamente, naquele espaço! As lágrimas vieram de dentro, sem contar com elas. Nasceram de um lugar que nem sabia ter. Brotaram por um corpo que se viu a tremer por sentir-se a flutuar na beleza de um “era uma vez um sonho, bem-vindos à realidade”. Era o início da procura de um outro sonho.
É para recordar estas datas de maio de 2017: sentir o maravilhoso peso de se estar a viver o sonho daqueles que fazem os meus sonhos nascerem. E, meus caros, isso é Fringe! #azoresfringe

 

 

 

Foto: Helder Gonçalves (Carolina Cordeiro partilha sua escrita no meio das vinhas da MiratecArts Galeria Costa)

Açores 24Horas

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5 de Maio de 2017


terry costa Foto Pedro SilvaAmar. Amor. Eu amo. Tantas vezes ouvimos esta expressão, que até parece perder-se no seu significado. Mas, eu amo esta terra!
Aquele momento quando nos esquecemos do tempo – e do clima, que se sente quando se está conversando em frente da porta do Centro de Interpretação da Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico, com o diretor do Parque Natural – Paulino Costa, e a videografa Ana M. Costa questiona porque estamos na rua, debaixo de bruma; quando o Tony Silveira está a afinar seu violão, em frente da prensa de lagar; o Wilson Medina, a tocar uns acordes para a sua filhota, que quer é dançar ao som do que o pai lhe oferece com seu bandolim; o Grupo de Chamarritas da Casa da Música da Candelária (agendados para bailar, numa hora de temporal ventoso) decidem que a varanda do Baco´s Corner é mesmo o melhor lugar para o bailo, do fim de tarde; o Fado Ilhéu, a aquecer o Alto da Bonança, em Santa Luzia; a Fátima Gamboa, com um sorriso que vai e vem de Lisboa à ilha montanha, contente com sala cheia e mesa bem posta e composta – uma casa portuguesa com certeza!; a Conceição Gomes, cheia de orgulho, mostrando a Casa Inverno na Villa 4 Seasons, estes são apenas alguns momentos do primeiro dia do Visitarte – o festival de artes em casas rurais. E, refletem algumas das razões por que, repito dia após dia, “eu amo esta terra!”.
Criar, organizar, apresentar, promover, incentivar, participar, gostar, abraçar o que nos oferecem, o que nos rodeia, às vezes parece mais difícil do que podia mesmo ser. O ser humano tenta complicar o viver. Temos, assim, tantas inseguridades que no lugar de dizer sim é mais fácil dizer um não? Vejam só o que conseguimos com o “sim” quando foi apresentado esta ideia de levar arte e abrir portas a estes lugares construídos ou re-construídos com tanto amor.
Quando pedi à senhora Salomé Medeiros para nos encontrarmos no lugar do baloiço não esperava que o baloiçar fosse fazer parte da conversa. Foi um momento tão precioso que me fez questionar quando tinha sido a última vez que tinha estado num baloiço. A Quinta da Ribeira da Urze, na Prainha de Cima, tem este lindo baloiço, que agora já sei que quando por lá passar, vou tirar um minuto para apreciar a paisagem, no balanço, neste lugar paradisíaco, que nos mostra a serra vistosa e a ilha de São Jorge, que parece querer apegar-se ao Pico. Desde criança, que ela me responde. E já se passaram umas boas décadas… espero que volte ao baloiço, mais vezes, tal como se aventurou nesta ideia da MiratecArts, de abrir as portas desta casa rural, para brindarmos e brincarmos um pouco, com a dança e com a turma de bailarinas de Sofia Sousa, da Santa Casa da Misericórdia.
As histórias, as aguardentes, os toques dos instrumentos liderados por Zilda Machado e os sorrisos contagiantes da família Simas, na Adega da Varanda Alta, no lugar do Canto, em Santo Amaro; o cavalo branco, que ficou amigo após sentir o calor da mão humana no seu rosto, e a menina Vitória, a mais atenta na performance-arte com pintura-ao-vivo, na Casa do Paim em Santo António; o Bruno da Rosa, a estrear as suas músicas, com letra em português, na Aldeia das Adegas; o Grupo de Cordas Ilha Negra a encher as ruas e salas das Adegas do Pico, com os sons de tradição dos instrumentos de corda… isto é a Capital do Turismo Rural – São Roque do Pico.
Isto é a razão pela qual o executivo camarário disse sim à aventura com a MiratecArts e porque o seu presidente Mark Silveira acompanhou e também participou, com sua voz em canto e cantigas, nestes dias de Visitarte. Isto é amar o que temos na nossa ilha. Eu amo ESTA terra!

 

 

 

 

 

Terry Costa
MiratecArts, 5 anos a promover os Açores com arte e artistas

Foto: Pedro Silva

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8 de Janeiro de 2015


sismo terceiraPassaram 35 anos e alguns dias sobre o terramoto de 1980. 1 de janeiro, o dia do Sismo. Pelas 15horas e 42 minutos, a terra tremeu brutalmente. Terceira, Graciosa e São Jorge sentiram o abalo, com epicentro a 35 quilómetros de Angra do Heroísmo e uma intensidade de 7,2 na escala de Richter. A cidade, hoje património mundial, ruiu no ronco da terra. Cerca de 80% das suas casas não resistiu à força da natureza. Uma força que ninguém entendeu. Era o primeiro dia do ano, tinha havido Natal, tinha havido festa. Mas umas horas depois davam-se graças a Deus pela plena tarde do sucedido, onde mesmo assim 73 pessoas perderam a vida, e cerca de 20 mil ficaram sem teto.

Ter vivido aqueles segundos, que se transformaram em dias e anos, marcou estas gentes. De forma distante, ainda hoje se reage, se conta, se ensina e se sofre à conta daquele primeiro de janeiro. As horas que se seguiram ao abalo estão claras nas memórias. Havia um silêncio aterrador. A qualquer momento podiam surgir réplicas. Mais mansas, mas a deixar as almas em polvorosa, a fazer rodar os dedos nas contas dos terços, e também a mostrar uma solidariedade de amor. As pessoas ajudavam-se e sentia-se o medo reinante.

Tenho imagens tão nítidas de tudo que se passou, que quase duvido ainda não ter cinco anos quando a terra tremeu. Nesta ilha de Jesus, nesta paz no meio do mar, neste rochedo que foi então de sofrimento e temores. E os interiores das casas pareciam todos feitos de papelão. Tinham sido simplesmente cuspidos para as ruas. As torres das igrejas pereceram. Apenas a fé não desabou.

Passado todo este tempo, que foi quase nenhum, vem-me à ideia uma canção: Terra mãe de assombrações. Um tema lindíssimo, do Zeca Medeiros, ligado para sempre à voz da Susana Coelho. Entre notas e palavras, e “do ventre deste sobressalto”, percorre-se “este sismo que me faz cismar”. E foi isso mesmo, como diz a canção. Foi um sismo. Enorme e autêntico, tão verdadeiro e duro. Que nos fez cismar. Para as nossas vidas. Mesmo se tanta coisa boa surgiu depois de abalada a lava dos nossos corações. Ainda assim…nunca mais fomos os mesmos.

 

 

Miguel Sousa Azevedo  – http://portodaspipas.blogs.sapo.pt/

http://portodaspipas.blogs.sapo.pt/nunca-mais-fomos-os-mesmos-1757641

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