O difícil caminho da “palavra” Açores , por Miguel Sousa Azevedo

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açores turismo Miguel AzevedoQuando, no final dos anos 90, a equipa principal do Santa Clara subiu à 1ª Divisão do futebol nacional, Carlos César, então a liderar o seu primeiro governo, encontrava o mote para catapultar uma vontade pessoal, unindo a proeza do emblema encarnado à promoção dos Açores no exterior. Estava criado o mito da “palavra” Açores, e começaram então todas as guerras e guerrilhas entre desporto, promoção turística e as vontades dos governantes regionais que, passado algum tempo, foram reeleitos com maioria. Nada mais foi como dantes.

Mas seria injusto não valorizar aqui um leque de eventos “patrocinados” pelo turismo açoriano que foram – e ainda são – um amplo sucesso mediático, mas sendo certo que a confusão é generalizada pois, da formação desportiva às campanhas para “chamar” turistas à Região, as regras alteraram-se tantas vezes, e ao sabor de tantos ventos, que ainda hoje o cargo voluntário de dirigente desportivo é um manancial de conhecimentos e escorregadelas. e a carga de trabalhos estender-se-á aos muitos operadores turísticos e organizações do arquipélago. Mas este pequeno desabafo destina-se mesmo ao fenómeno desportivo, em alguma da sua vasta extensão, e ao panorama que essa promoção externa das ilhas de bruma também criou. Pelo menos em duas modalidades. Conforme se lê no site do Clube Desportivo Santa Clara, o emblema será “a melhor marca dos Açores”. Justiça seja feita a quem criou o epíteto pois, se não é a melhor marca, é pelo menos a mais cara. Com a particularidade de se vender por altíssimo preço e de gerar contrapartidas muito duvidosas. Mas o mote não é atacar o clube micaelense, até porque todos os derivados de gestão que foi apresentando ultrapassam essa escala…de clube.

Voltemos ao início do novo século. Com a turma encarnada – titubeantemente – entre as melhores equipas do desporto-rei, 1999 foi o ano de “cozinhar” um apoio para agradar aos terceirenses, e que passou por apoiar o campeão regional de ralis. Vivia-se então o reinado de Gustavo Louro, e o ano 2000 estreou a fórmula, com os famigerados 20 mil contos a patrocinarem uma época plena de azares. Seguiram-se-lhe Horácio Franco – que alcançou um título nacional -, novamente Louro – cujas incursões nacionais nunca fizeram jus ao seu imenso talento -, e Fernando Peres (2006 a 2008) – este já ao abrigo de uma nova legislação, que permitiu a uma equipa de fora dos Açores ser campeã e usufruir da “palavra” Açores na sua carreira continental. Recorde-se que, até lá, Gustavo Louro já tinha tido dois navegadores não-residentes, que ganharam o campeonato, mas não foram campeões. De 2009 até hoje tem sido Ricardo Moura, com os resultados brilhantes que se conhecem, a ser apoiado pela Região, sendo que a verba “emagreceu” até aos atuais 65 mil euros. Para que haja uma noção dos atuais custos da participação, a reparação do Fiesta R5 acidentado no Rali da Madeira terá mais ou menos essa cifra. Sinal dos tempos, mas também de que não é o mérito a orientar apoios nem valores, e aí vêm novamente à baila o Santa Clara e os milhões que, em década e meia, o erário açoriano já despendeu. O que efetivamente ficou por cá em valor desportivo e o tão propalado retorno. Regressando aos ralis, foi doloroso ver, na passada semana, o responsável pelo turismo nos Açores a tentar explicar-se num debate televisivo. Como doloroso foi aferir que nem sabia os valores estudados do retorno de um evento como o SATA Rallye Açores, outro alvo preferencial de ataques pela sua onerosidade regional.

Como na realidade das equipas e clubes, e dos organizadores de eventos, por esse arquipélago fora, também nestas linhas a “salada” entre desporto e turismo é imensa. E mais haveria para focar, mormente em torno de participações nacionais bem sucedidas – mas altamente estrangeiradas – ao nível do basquetebol, do voleibol, do andebol, do ténis de mesa, da vela, ou do hóquei em patins. E que deixaram, penso eu, valia técnica que os novos tempos vão comprovando. Como em torno de eventos felizes como o Cliff Diving Açores, o Azores Trail Run e outros que tais, em que a beleza das ilhas funcionou bem melhor que os milhões “atirados” ao norte da Europa para subsidiar a vinda de turistas “low cost”. Mas nem me alongo mais…o difícil caminho da “palavra” Açores está para durar. Conquanto dure o paradigma, imerso em distúrbios e escasso nos reconhecimentos. Boa viagem.

 

 

 

Miguel Sousa Azevedo

http://portodaspipas.blogs.sapo.pt/

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