Sónia Nicolau | Os leitores não são perigosos. A falta de liberdade, sim.

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Sónia Nicolau - Professora e Deputada PS/Açores | Foto - Rui Soares

“…ao verificar serem de maio os dois exemplares do Avante…”, é assim que Carlos  Ildefonso Tomé toma contacto pela primeira vez em suas mãos o Avante escondido entre os outros jornais. Estamos no ano de 1937. O livro “Um perigoso leitor de jornais”, de Carlos Tomé, é , sem dúvida, uma das interessantes amostras de uma belíssima prova de vida e consequência da liberdade do conhecimento. 81 anos, dos dias de hoje, nos separam para o ano da primeira página desta desassombrada narrativa. Nos dias de hoje a liberdade de imprensa não é questionável. A ser, não por imposição do regime, mas em muito por imposição dos interesses individuais, dos que querem dominar as tendências aos diferentes níveis, ou através das escravas quotas de publicidade. O direito ao conhecimento
é assumido como uma necessidade premente e diária, onde a censura é censurável. Tempos diferentes viveu Carlos Ildefonso Tomé, que lia os jornais enviados pela irmã , o Diário de NewBedford – “ É gente nossa, na América, a publicar o que, aqui, nem nos atrevemos a murmurar aos nossos botões”.
Portugueses com amarras e sem amarras, situação determinada pela geografia. O mês que terminou, abril, é um marco da liberdade portuguesa, e este livro histórico, com episódios de vida de um carteiro, de um corajoso homem do saber, vai deixando ao longo das suas páginas, o retrato de um Portugal antes do 25 de abril, descrito pela sua “capacidade colonizadora”, pelos presos políticos em Angra do Heroísmo ou pela saída precoce da escola Carlinhos e Luís – filhos de Carlos e Maria José – , justificada pela necessidade de aumento do rendimento familiar, e o não reconhecimento pelo valor do trabalho dos seus jovens filhos, desde logo pelo baixo rendimento auferido. O valor do trabalho que este mês de maio abraçamos logo no seu primeiro dia. Para além do enredo histórico, esta obra convida-nos a visualizar algumas ruas de Ponta Delgada. E até, uma em particular, a Rua
D’Água, número 48. Ao residente do número 48 foi aplicado um auto de prisão, onde a presunção de inocência era uma miragem. O melhor era confirmar tudo. A pena seria menor. “Um Perigoso leitor de jornais”, é uma vivência histórica, de ruas e locais que conhecemos, de um abril que, muitos, desconhecem do que nos libertou. Nos dias de hoje existem motivações pessoais que se atrevem, ou nós nos atrevemos, a substituí-las pela liberdade. Pelo direito total à liberdade. Carlos Ildefonso Tomé tinha orgulho na sua profissão, conhecia cada rua , cada cidadão, foi esse mesmo conhecimento que o infiltrou, da mesma forma como nos serões o Avante o infiltrava no Portugal real e na rede antiregime, a partir do seu sofá.
Carlos Ildefonso Tomé, terminou os seus dias longe da sua profissão. O custo da
liberdade, da dignidade da sua família, da “segurança” financeira – que não
dispensava as três notas de dólares de sua irmã pelo natal – , tudo trocado por
leituras de verdades escondidas e perseguidas.

 

 

Sónia Nicolau / Maio 2018

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