Zuraida Soares | ESTRATÉGIA POLÍTICA, PRECISA-SE! (I)

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Zuraida Soares - Professora e Deputada BE/Açores

Portugal tem uma das maiores zonas marítimas da Europa e 55% dessa zona é devida
aos Açores. E esta quota subirá, exponencialmente, para 66%, caso a ONU aprove a
extensão da plataforma atlântica.
Este mar imenso é alvo da investigação (e também da cobiça) de interesses
económicos poderosos, desde há muito tempo. Segundo a tese de mestrado “A
plataforma continental portuguesa”, do capitão tenente Jaime Ferreira da Silva, entre 2001 e 2011, os cruzeiros científicos, nos Açores, atingiram o número interessante de
282. Ora, a palavra ‘cruzeiro’ pode enganar, mas é certo que não vieram passar férias.
Segundo o mesmo estudo, estas viagens científicas foram feitas, preferencialmente,
pela Alemanha, seguida da França, Espanha, Estados Unidos e, com menor frequência,
por outros países. Sabendo nós que a BASF (empresa gigante alemã) tem 47 % de
todas as patentes sobre material genético de espécies marinhas, em todo o mundo, e
que 11% de todas as patentes estão associadas aos ecossistemas das fontes
hidrotermais, percebemos melhor a importância do nosso mar.

Simultaneamente, os Açores têm um património fabuloso e pioneiríssimo, no estudo
dos oceanos, da sua preservação, da sua sustentabilidade ambiental e económica. É
fácil ouvir fazedores/as de ciência – que cá estão ou por cá passaram – referirem-se,
com orgulho, ao trabalho feito e bem feito, ao conhecimento adquirido sobre o mar,
sobre o seu solo e subsolo, ao mesmo tempo que reconhecem o imenso trabalho que
está por fazer. Então, como perceber que, exactamente na altura, em que mais olhos
se concentram, nas potenciais riquezas do nosso mar, seja, exactamente, a altura, em
que os Açores (apesar de toda a propaganda vigente) estão mais desprotegidos de
pessoas e de instrumentos, capazes de fazer valer os nossos interesses.

A prová-lo temos, por exemplo, o caso do IMAR: se não fechou, parece… e, em
desespero de causa, teve o Governo Regional de inventar uma solução que permitisse
salvar (ou, pelo menos, tentar salvar) o que é mais importante – os recursos humanos –
, no decurso deste naufrágio. Solução que, em muitos casos, não respeita a dignidade
do esforço, do conhecimento e do brio profissional, das pessoas envolvidas, sendo
apenas uma solução de recurso. Será que esta solução se insere, numa estratégia para
o desenvolvimento da economia do mar?!

Sabemos que, nos Açores, o número de investigadores doutorados, nos últimos cinco
anos, diminuiu 22%, investigadores não vinculados à UAÇ diminuiu 25% e estudantes
de doutoramento diminuiu 44%. Tristes números e todos eles respeitantes ao que
podemos designar, genericamente, por ‘ciências do mar’. Emblemático, também, é o
facto de, nas 20 vagas abertas para a licenciatura em Ciências do Mar, na Universidade
dos Açores, só 1 ter sido preenchida, na primeira fase. Além disso, pelo que ouvimos e
conversámos, a debandada vai continuar, sobretudo, para universidades do continente
ou do estrangeiro e, até mesmo, para empresas privadas estrangeiras que apostam na
biogenética. Como diria um amigo meu, em conversa sobre estes dados “O que me
estás a dizer é pior do que implodir os Jerónimos”.

A pergunta que fica é: – perante estes dados, o que faz o Governo dos Açores?

 

(a continuar)

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