Artigo de Opinião – TOIROS PICADOS … NÃO ENVERGONHEM ESTE POVO

touradasEmbora à distância, não deixo de acompanhar o que se vai escrevendo e dizendo sobre os toiros picados e a vontade de alguns em quererem introduzir essa modalidade nos Açores.

 

Os argumentos dos que defendem esta prática continuam a insistir que faz parte da tradição e que promove o turismo.

 

Utilizar o sofrimento dos animais para justificar a entrada de verbas na região, não me parece o caminho mais correcto, mas a afirmação revela um desconhecimento completo do perfil de quem visita a região. Quem nos procura, seja nacional ou estrangeiro, vai ao encontro da natureza, vai ao encontro do equilíbrio entre o homem e essa mesma natureza, coisa rara nos dias de hoje, vai ao encontro do valioso património humano edificado e de um ambiente único no mundo, pautado por uma certa calma e doçura na forma de viver.

 

A imagem dos Açores que tem sido apregoada, e muito bem, congrega estes valores e são que eles que atraem forasteiros. Introduzir toiros picados vai gerar uma onda de protestos com consequências graves no turismo. E não se julgue que as pessoas são indiferentes a estas questões. Quem ler os jornais do início do século XX já encontra críticas de estrangeiros aos nossos “brutos” costumes por maltratarmos os animais domésticos; o que não dirão da brutalidade que agora se quer introduzir…

 

Os Açores têm um passado histórico a preservar, uma cultura que nos honra, uma imagem positiva em todos os cantos do mundo, uma forma de estar reveladora do processo civilizacional que constitui a longa caminhada da humanidade. O que se defende agora é um retrocesso. É pena que uma boa parte dos representantes dos açorianos na Assembleia Regional não saiba interpretar esses valores e queira ficar para a história como um símbolo do retrocesso.

 

Quanto à recuperação da tradição, tenho andado a folhear o que tem sido publicado sobre touradas e não encontrei nada que refira a prática de picar os toiros, como uma componente da festa taurina. Não se invoque Luís da Silva Ribeiro, porque ele não o afirma e nem sequer era defensor dessa barbaridade. Recordo, por exemplo, que, quando foi administrador do concelho de Angra, deu ordens à polícia para não permitir maus tratos aos animais, nem que os carros fossem puxados por cães, conduzindo pessoas ou cargas excessivas.

 

Ainda nos princípios do século XX, os nossos homens do campo iam às touradas acompanhados do seu bordão, com um aguilhão encavado na ponta. A brutalidade que caracterizava muitos deles levava a que espetassem o animal, para que a ferroada provocasse a correria do bicho. Trata-se de actos individuais, isolados, que não faziam parte da estrutura da festa. Não se confunda estas atitudes como uma prática generalizada. E a prová-lo estão precisamente as críticas que foram feitas na imprensa a estes actos, considerados bárbaros. Como já escrevi neste periódico (a 17 de Fevereiro), o que mais se encontra na imprensa é precisamente a opinião que defende o animal e não quem o pica. Esta era a atitude mais adequada a uma sociedade que vinha defendendo novos valores, novos comportamentos, considerados civilizados. 

 

Há dias, numa reportagem televisiva, um defensor dos toiros picados argumentava que só ia à tourada quem queria, como se o problema fosse esse. Independentemente de quem vê, o animal sofre quando é picado. A questão centra-se no animal e não no espectador. A defesa dos direitos do homem e a defesa dos direitos dos animais são uma conquista da humanidade. Uma conquista que marca a era moderna, que nos distingue da barbárie de outros tempos.

 

Só por ignorância ou demagogia se pode defender a tradição desta prática violenta ou afirmar que é um acto cultural. Esta afirmação ainda me deixa mais boquiaberto. Por onde andará essa cultura que ninguém a viu? Mais perplexo fico quando vejo deputados de ilhas que nunca sentiram o bafo de um toiro aceitarem esta premissa. Mas mesmo que fosse uma questão cultural, o que a humanidade tem feito é combater o que há de negativo nesses comportamentos dos homens. Será que os nossos deputados vão defender o alcoolismo, a violência doméstica, a prostituição por serem uma prática cultural?

 

Meus caros senhores, ainda vão a tempo de repensar o sentido do vosso voto. Não envergonhem o cargo que ocupam, a instituição que representam, o povo que vos elegeu.

 

 

 

 

 

Carlos Enes

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